A cada fato, um trago

Toda vez que me ponho a escrever textos deste gênero, esta joça meio dramática com tonalidades pastéis de romance ilusório, questiono a vida se estou insistindo em uma vulgaridade irracional, talvez quase anacrônica. Ninguém deseja ler estes desvarios no fim das contas, por mais inócuos que soem.

Abuso da metalinguagem e explico a razão pela qual sou tão adepto deste hábito quase desprezível de me dirigir subjetivamente a quem escrevo. Invento um nome fantasia, personifico sinônimos ou adjetivos, enfim, lanço mão dos recursos possíveis para me fazer entender sem que o tiro atinja fatalmente o meu interlocutor em mente. Faço isto não apenas porque é mais confortável a partir da perspectiva literária de um autor que tenta esconder a pessoalidade dos seus escritos, mas também porque deste modo não admito nada que possa me criar dores de cabeça e consequências desagradáveis. Em outras palavras, me camuflo atrás de boas metáforas porque covarde sou ainda que haja a certeza em meu peito que me arrependerei por calar tantos sentimentos.

Odeio não manter minhas promessas, até mesmo aquelas das quais apenas eu tenho conhecimento. Jurei, ingenuamente, por exemplo, nunca mais amar romanticamente. Que tolo! Nunca poderia ter sob controle os desatinos de um coração. Amar é como aquela vontade insana de ouvir o disco de 1992 do Raça Negra. Ninguém acorda planejando tal feito, mas é o que acaba vindo de encontro ao nosso tão pueril destino com o curso da vida.

Imagine o sentimento cultivado pelo paciente que sofre dos males incalculados de uma apendicite. Certamente, este mal aventurado sujeito, odeia mais do que nunca aquela pequena extensão do seu corpo que a ciência já andou afirmando por aí que nenhuma utilidade possui. Pois bem, assim me sinto quanto o amor: faz parte da minha natureza, mas gostaria de arranca-lo o mais rápido o possível de minhas entranhas. Como o apêndice, este sentimento só serve para inflamar e causar dor em momentos inoportunos.

Há muito tempo amo a contragosto, e consequentemente faço pirraça como uma criança que é obrigada a comer espinafre no almoço. Minha afronta toma forma nos textos, nas palavras ditas no cotidiano e na feição de desprezo que elegantemente reservo a alguns casais. Uma vez ou outra, cesso esse choro amargo e revelo minha verdadeira e patética faceta de ultimo romântico desiludido. De que adianta amar sinceramente e expor tamanha fraqueza? Serei só mais um navio à deriva, mais um cadáver na contagem dos mortos de uma grande tragédia.

Hipócrita que sou neste aspecto da vida, gosto de ouvir as bandas inglesas dos anos oitenta e me sentir superior a quem está por aí amando sem reservas. No fundo, estou me remoendo, amaldiçoando a vida porque ela não foi generosa comigo neste ponto. Ora, eu que não fumo, cada vez que penso neste amor tão distante e irônico, sinto vontade de me presentear com o aumento da possibilidade de adquirir câncer. A cada fato, um trago. A cada desilusão, uma nova decepção. É só isso que o sentimento mais cultuado pela humanidade me reserva. Espero que, ao menos, a vítima do meu amor seja feliz.

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Renato Melmoth
Renato Melmoth é carioca, morador da Tijuca, existencialista e acredita plenamente no amor desde que não esteja envolvido.