Assustadora, ‘American Horror Story: Cult’ tratou dos horrores da realidade

Quem tem medo de possessão demoníaca num mundo com Trump e Bolsonaro?

Uma das melhores séries da atualidade, American Horror Story certamente não tem o reconhecimento que merece. No formato de antologia (cada temporada conta com uma história independente das outras, ainda que se liguem em um universo compartilhado por alguns detalhes sutis) a série conta sempre com histórias muito interessantes, com elenco estrelado e com atuações primorosas.

E a sétima temporada não é diferente. American Horror Story: Cult é sobre os tempos sombrios em que vivemos. Tempos estes marcados pela deterioração da política e da democracia e do crescimento do discurso de ódio. O fato é: nos últimos dois anos a extrema-direita perdeu a vergonha e passou a ocupar as ruas. Seja em Charllotesville. Seja na Avenida Paulista. Durante processo, alguns indivíduos ou grupos estão sabendo mobilizar esse ódio para seus próprios fins. Sobretudo fins eleitorais. É o caso de Kai (Evan Peters), personagem principal da temporada.

Kai representa um “tipo ideal” dessa “nova extrema-direita” mundial: jovem, branco, pouco intelectualizado, homofóbico, misógino, xenófobo. Com bom manejo de rede social e boa retórica, consegue recrutar uma enorme quantidade de pessoas como ele para seu “culto”. Em pouco tempo e com algumas ações pontuais (não citarei para evitar spoilers) consegue um cargo político local e passa a almejar um lugar no Senado. (Não! Apesar de ter grande similaridade, American Horror Story: Cult não é sobre a história do MBL).

Antagonizando à figura de Kai, temos Ally (Sarah Paulson), mulher, homossexual, classe média alta, intelectualizada e com certa erudição, que vê suas fobias ressurgirem após a eleição de Donald Trump.

A história é contada em episódios ágeis e conta com os habituais plot twists, um pouco mais moderados do que nas temporadas anteriores. Mas ainda assim surpreendentes. Entretanto, se os dois protagonistas que se antagonizam são impactantes, não sobra tempo para muito desenvolvimento dos coadjuvantes, que são o elo fraco da temporada.  O elenco um pouco menos “pesado” do que as temporadas anteriores, apesar de abrir espaço para atuações primorosas de Evan Peters e Sarah Paulson (gostaria de entender como não são aproveitados em Hollywood), atores presentes desde a primeira temporada, mas que acabavam sendo coadjuvantes de astros de maior peso como Jessica Lange, Angela Basset, Kathy Bates, Lady Gaga, Emma Roberts e Zachary Quinto.

Ainda, a série conta com a já habitual reconstituição histórica de alguns pontos do passado americano. O assassinato de Sharon Tate, pelo “culto” liderado pelo recém-falecido Charles Manson é recontado de maneira cruel e impactante.

Após uma temporada focada em uma lenda histórica americana (Roanoke) e com o estilo found footage, Brad Falchuk e Ryan Murphy (que possuem uma coragem louvável para ousar) entregam a temporada mais contida de todas. Mas para meus medos e minhas fobias, foi a mais assustadora. Afinal, quem tem medo de possessão demoníaca, de fantasmas, de bruxas, de serial killer quando temos a milícias de Trump’s, Bolsonaro’s, MBL’s e companhia limitada? Que saudades do Pazuzu

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