‘Androides sonham com ovelhas elétricas?’: o livro que inspirou ‘Blade Runner’

Ao lado de 2001: Uma Odisseia no espaço e Solaris, Blade Runner: O caçador de androides, dirigido por Ridley Scott, é um clássico absoluto da ficção científica no cinema. O que muitos não sabem é que a obra é inspirada em um livro ainda mais brilhante. Androides sonham com ovelhas elétricas? é um romance escrito por Philip K. Dick, um dos grandes mestres da ficção científica na literatura, ao lado de Isaac Asimov (Fundação) e Arthur C. Clark (2001). No livro, o autor consegue explorar assuntos existenciais presentes em toda a história da arte e, além disso, pensa tais assuntos em nosso cenário moderno de  alto avanço tecnológico, tornando a obra ainda mais rica do que o filme, que já é seminal.

Após guerras e escassez de recursos naturais, a população da Terra colonizou Marte, fugindo das condições péssimas do planeta natal. Porém, apenas a elite teve essa oportunidade, enquanto que as pessoas de classe social mais baixa vivessem em um ambiente repleto de uma poeira tóxica. O protagonista Deckard é um caçador de androides e o personagem do livro mantém certas diferenças do filme. Interpretado por Harrison Ford, no longa Deckard é um personagem poderoso e de atitude, presente muitos personagens marcantes da década de 80. Já no livro, temos um protagonista bem comum, sendo apenas um homem nada impressionante com seu emprego. Como exclusividade do livro, Deckard tem uma esposa, Iran, que se mostra uma personagem importantíssima para abordar um tema poderoso na obra: o vazio. Iran é extremamente depressiva e apática quanto a vida. Para aliviar isso, ela se tornou uma fanática religiosa, utilizando a “caixa da empatia” para entrar em contato com Mercer, uma espécie de messias dessa religião.

Na realidade de Androides sonham com ovelhas elétricas?, onde boa parte dos animais foram instintos, ter um animal de estimação é sinal de status. Para manter as aparências, Deckard tem uma ovelha elétrica e sonha em ter um animal de verdade, por isso aceita o emprego de caçar três androides. Daqui vem a pergunta não respondida título do livro. Outra questão não respondida é sobre Deckard ser um androide ou um humano. Isso abre uma brecha interpretativa muito grande: se humanos sonham com animais de verdade para legitimarem sua humanidade, androides sonham com animais elétricos para se afastarem cada vez mais dos humanos ou sonham com animais reais em seu próprio sonho de ser humano? Essa questão em aberto nos leva ao conceito mais interessante do livro: A embagulhação.

Bagulho “é todo tipo de coisa inútil, como correspondências sem importância, caixa de fósforos vazia, embalagem de chiclete ou homeojornal de ontem. Quando ninguém está por perto, o bagulho se reproduz”. Para discutir tal tema, acompanhamos a vida de Isidore, um “cabeça de galinha”, ou seja, um homem intelectualmente inferior, que tem o culto de Mercer como a única razão para uma vida inútil. Último morador de seu prédio, Isidore se depara com a crescente aparição de objetos inúteis em sua casa; todo tipo de lixo e coisas descartáveis. O efeito da embagulhação é quando os bagulhos tomam o lugar do homem. Como dito acima, os bagulhos se reproduzem, atitude humana, como se não fossem inanimados, enquanto o homem está parado. A realidade é que a humanização das coisas é apenas um efeito, pois o que realmente ocorre é o contrário: nós, humanos, cada vez mais nos tornando próximos das coisas, descartáveis. Não apenas isso, mas o homem perde tanto da sua humanidade que as coisas o substitui.

É aqui que entram os androides: temos no livro humanos tão próximos das coisas e androides repletos de sentimentos. O interessante do livro é que, tirando Deckard, sendo indefinido, todos os androides tem características humanas muito maiores do que a dos próprios humanos da história. Isso levanta o questionamento: o que é ser humano? Talvez os androides não sintam realmente, apenas imitem os comportamentos humanos, porém as imitações se tonam muito mais próximas da ideia de humano do que a própria atitude dos humanos. Mas a grande questão do livro não é pensar sobre os androides e sim sobre nós: não são as máquinas que estão mais próximas da gente e sim nós que estamos distantes do que deveríamos ser. A única coisa que nos difere das máquinas, segundo o livro, é nossa capacidade de sentir empatia.

Cada vez mais o homem perde essa capacidade, tornando-o menos humano que uma máquina. Para garantir que isso não ocorra, existe a “caixa de empatia”, a maneira de nos conectarmos com o culto de Mercer. Nessa projeção astral, nos tornamos Mercer, um homem velho subindo um morro e sendo apedrejado. O sofrimento sentido é real. É um momento onde todas as pessoas se conectam, se tornam um, e o sofrimento é também transa. Ao fim dessa experiência, as pessoas voltam para sua vida e o vazio é ainda maior. Philip K Dick consegue falar sobre religião em sua obra, não criticando alguma crença, mas sim mostrando que a religião existe para nos garantir a empatia e, dessa forma, nossa humanidade. O que acontece é que, no livro, Mercer é uma fraude. O que fazer quando a única segurança que temos de nossa humanidade é falsa?

Androides sonham com ovelhas elétricas? fala, além de tudo já dito, sobre o vazio. Nós somos assim e as coisas que construímos, os bagulhos, refletem nosso vazio. A proximidade das coisas para nós também a proximidade de nossos vazios. O vazio nos olhares dos androides e também no de Iran, e no sentimento em geral que o livro nos passa, se opõe a embagulhação. Enquanto o bagulho preenche os espaços cedidos pelos humanos, o vazio é o não preenchimento. O vazio não é algo exclusivo nosso, é algo visto nas coisas e nos androides, mas também é o que nos separa deles: o vazio que há nas coisas só há porque nós o projetamos. O vazio é a confirmação da nossa humanidade; é nossa distância do resto.

*Esse texto foi escrito a partir de reflexões próprias do autor somadas às do posfácio de Ronaldo Bressane em Androides sonham com ovelhas elétricas. Aleph, 2014.

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Raphael Domingos (Randi)

Estudante de jornalismo, leitor voraz de literatura e histórias em quadrinhos e grande fã de cinema, do classudo ao trash. Aguarda ansiosamente o despertar de Cthulhu, com a condição que seja depois das 10, seu horário de leitura.