Balada dos sorrisos ingratos

Criar rótulos sempre me pareceu um hobbie extremamente agradável, embora digam por aí que é característica flagrante de gente superficial e mesquinha. Ora, folheando as desgastadas páginas do romance que possuo em mãos, questiono-me quanto a real pejoratividade deste hábito.

Primeiramente, quem são estes jovens narcisistas, filhos do século XXI, que desejam me acusar de ser superficial? Imersos num poço de mal gosto cuja rotina degradante é escancarada para todo o mundo, estas alienadas almas não podem apontar o dedo em minha direção quando rotulo ou cultivo meus sentimentos inadequados.

Odiar, desprezar, abominar: a transitividade direta destes verbos revela a hipérbole do meu cotidiano, do meu pseudônimo. As risadas forjadas e as conversas de doce tom escondem meus reais sentimentos. Se a humilhação e a frustração não me bastam, permitam-me apenas odiar livremente o universo pela mais fina ironia que separa meu espírito da felicidade. Ingratidão terrível de minha parte, admito. Entretanto, de que valem as grandes vitórias se quem me entrega a paz está tão distante? No mundo onde a normalidade promove a ditadura, é raro encontrar rascunhos fora do padrão.

Sou uma dedicatória mofada, entregue aos desvarios próprios. Sou a gilete que corta o pulso cheio de subjetividades planejadas. Sou o crime passional, inconsequente. Sou o pagode que tocava nas rádios em meados dos anos noventa. Enfim, nesta balada de sorrisos ingratos, sou aquele sujeito sentado ao fundo aplaudindo debochadamente o relacionamento alheio desejando estar ali.

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Renato Melmoth
Renato Melmoth é carioca, morador da Tijuca, existencialista e acredita plenamente no amor desde que não esteja envolvido.