O tão esperado retorno de uma das séries mais comentadas dos últimos anos finalmente chegou e Black Mirror novamente causou certo alvoroço entre fãs e crítica. Decidi esperar um pouco antes de fazer esta análise, assistir mais algumas vezes os episódios e realmente refletir sobre eles. Desta forma, destacarei os episódios individualmente priorizando também uma análise da temporada sob uma ótica geral.

Atenção! O texto contém spoilers dos episódios!

1. USS Callister

O episódio desde seu trailer se declarou uma paródia da série Star Trek, porém é bem mais do que isso. Ao mesmo tempo que homenageia a série aclamada, também brinca com alguns de seus momentos “engraçados”, satirizando. O episódio envolve um programador que também é um dos criadores de uma empresa que permite a entrada em uma espécie de simulação. Daly (Jesse Plemons), o programador, possui um protótipo individual em sua casa para utilizá-lo como uma simulação de uma série que é a sua favorita.

O episódio gira em torno da nova integrante da empresa e do protótipo do Daly, Nanette (Cristin Milioti). No protótipo de Daly contém vários integrantes de sua empresa, que o negligenciam ou o maltratam na “vida real”. A forma de adicionar esses funcionários ao protótipo é pelo DNA da pessoa.

É, sem dúvidas, um dos melhores episódios da temporada, com sutis questionamentos sobre o que realmente torna um ser humano… um ser humano? É dito por uma das personagens no protótipo de Daly: “Você não é real”. Ela, contudo, pensa da mesma forma que a sua versão “real”, tem o mesmo conhecimento, questionamentos, conhece todos no protótipo.

O roteiro é bem objetivo, com diálogos precisos e que servem para a trama, sem maiores delongas. A direção de arte e a fotografia variam entre as cores vivas para retratar a fantasia do mundo virtual no protótipo de Daly e utiliza cores mais densas e uma atmosfera mais pesada para determinar o ambiente real.

2. Arkangel 

Dirigido por Jodie Foster, esse é um dos episódios que mais destoam da série em si, focando principalmente em um relacionamento entre mãe e filha e a construção dessa relação “baseando-se” principalmente em um aparelho criado pela empresa Arkangel que permite que a mãe veja tudo o que sua filha vê, alterando essa visão e até reprimindo a experiência de sua filha.

O paralelo feito entre uma das primeiras cenas do episódio com uma das últimas é talvez o mais interessante aqui, já o roteiro é extremamente simplista, não fugindo de alguns clichês e caminhos previsíveis – como o próprio desfecho do episódio. A direção de Jodie é padronizada com o restante da série, inclusive em certos enquadramentos como o da foto acima. Podemos resumir este episódio como uma relação e uma construção de personagens (que também nem são muito bem desenvolvidos).

Apesar de tudo, é interessante de acompanhar como a privacidade pode nos afetar e refletir no que diz respeito a até que momento a mãe ter certo controle sobre a vida de uma filha é aceitável. Onde está o limite, afinal?

3. Crocodile

Aqui temos outro episódio que foge também do padrão da série no qual seguimos uma personagem e sua incansável tentativa de “apagar” um assassinato de seu passado, cometendo vários outros assassinatos para isso (?). Aqui a tecnologia nem é tão usada e tampouco faz parte da trama principal. O aparelho é o que seria o começo do que vemos em ‘The Entire Story of You’, terceiro episódio da primeira temporada. O aparelho de Crocodilo é capaz de captar memórias em imagens, algo bem rudimentar comparado ao episódio citado.

É mais um episódio comum, em que o que mais há de interessante são os assassinatos, e um porquinho da índia que pode ser usado para captar memórias também (eu precisava comentar sobre isso).

4. Hang The DJ

Em ‘Hang The DJ’, temos, na minha opinião, uma das tramas mais interessantes de toda a série e o melhor episódio desta temporada. Esteticamente é impressionante e relembra bastante o primeiro episódio da terceira temporada ‘Nosedive’. A fotografia é tão precisa e apropriada com a atmosfera daquele universo que constitui, talvez, um dos únicos episódios “felizes” da série – o que já está sendo muito comparado com o controverso e premiado quarto episódio da terceira temporada, ‘San Junipero’.

Apesar da comparação ser um tanto precisa – visto que em ambos episódios há um casal que tenta se impor ao sistema e ultrapassá-lo – ‘Hang The DJ’ é mais situacional e o episódio gira em torno de duas pessoas vivendo em um sistema de encontros pré-definidos e com data de validade, e como essas duas pessoas tentam permanecer juntas.

Ao longo do episódio é dado ao espectador várias dicas sobre o que viria ser a reviravolta no fim, como os 4 pulos da pedra na água, ou Frank supondo que eles estavam em uma simulação. Na verdade, o sistema é uma espécie de Tinder com avatares virtuais para determinar a compatibilidade de um casal, especificamente 99,8%. Algo extremamente interessante e que é completamente possível de se imaginar num futuro próximo.

5. Metalhead

Novamente, outro dos episódios que fogem do padrão da série, e ‘Metalhead’ não foge somente do padrão de Black Mirror, mas do padrão de séries em geral. Visto que o diretor utiliza enquadramentos maiores, focando bastante no ambiente do episódio e em menos planos fechados (padronizado em séries por se passar na TV). O roteiro também foge do habitual com pouquíssimos diálogos – os que existem são precisos e objetivos.

O episódio gira em um futuro pós apocalíptico no qual alguns humanos são perseguidos por robôs (que relembram, ironicamente, os robôs da empresa Boston Dynamics) que, aparentemente, tem a intenção de dizimar a raça humana, ou simplesmente proteger seus produtos. O episódio abre espaço para enormes questões, e a cena final pode também deixar o espectador confuso. Há várias interpretações na internet sobre o significado apesar do próprio criador Charlie Brooker deixar claro que não há algo tão profundo na escolha dos ursos, foi simplesmente algo que ele declara “mais humano”.

6. Black Museum

‘Black Museum’ entra no meu hall dos melhores episódios desta temporada. Este é o episódio que mais contém referências ao universo compartilhado da série, não os citarei para manter a surpresa, mas a maioria é visto no museu. Este episódio se assemelha bastante ao ‘White Christmas’ e é quase inteiro focado em histórias do passado para assim se conectar com a trama do presente.

A direção e roteiro são brilhantes, talvez os melhores da temporada. As transições para as histórias e como elas são contadas (visualmente e textualmente) de forma engajante e interessante é de se arregalar os olhos em certos momentos. Há também espaço para algumas interpretações no episódio, e apesar de ser parcialmente uma história de “vingança”, abre espaço para vários gêneros serem abordados – assim como no episódio anterior da série já mencionado.

A quarta temporada de Black Mirror tem declínios e episódios que fogem do padrão qualitativo e temático da série. Mas, ainda assim, há vários acertos que conseguem impressionar, não só sob um ponto de vista criativo, mas também técnico. Charlie Brooker é, sem dúvidas, um grande contador de histórias e que irá acertar sobre o futuro da humanidade pelo menos em alguma vertente.

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Otavio Gaudencio
Estudante de psicologia, considerado por muitos um "cinéfilo" e um "fanático por Quentin Tarantino", 20 anos de idade e niilista desde os 18.