Criada em 2011, a conceitual banda carioca Cafe Republica vem escrevendo seu nome no rock brasileiro com ricos arranjos que exploram com delicadeza a atmosfera rítmica e suas progressões.

Composto por Anderson Ferreira (teclados e vocal), Barbanjo Reis (bateria, percussão e vocal), Juca Sodré (bass), Octavio Peral (guitarra, vocal) e Ygor (guitarra, vocal), o grupo lançou recentemente dois singles (‘Um’ e ‘Jardim dos Olhos’, ambos incorporados nesta matéria em formato de vídeo) que apresentam um notável aproveitamento da música tonal em meio ao experimentalismo e maior contemplatividade de suas influências que vão de Pink Floyd a Boogarins. O trabalho de mixagem e produção das canções foi realizado no Estúdio Camelo Azul (Rio de Janeiro).

Em relação aos trabalhos passados nos dois Extended Plays, a banda construiu um material que superou a sonoridade, trazendo o tonal e as progressões para um novo estágio de criação. O conceitual psicodélico nas melodias, por sua vez, tomaram tons mais intensos e virtuosos. Os vocais simplistas são repletos de fonemas minimalistas criados pelas letras que seguem a melodia, quase que tornando-se uma perfeita “simbiose” tonal.

Apostando em letras mais conservadoras poeticamente, nota-se uma maior preocupação com a anexação dos fonemas solfejados à melodia ao invés de ser brilhante logo de cara. Basicamente, as letras na língua portuguesa se mostram um pouco mais tímidas, embora demonstrem segurança. Pode ser que nos futuros trabalhos, o espírito compositor do Cafe Republica faça uma investida de cabeça em composições mais maduras – o que não é um problema no EP Ludere Occultant, que possui todas as suas composições em inglês e mostra letras bem produzidas.

O impressionante trabalho da banda carioca, com destaque para os profundos arranjos de órgão e o uso de distorções dinâmicas nas guitarras que criam um verdadeiro “diálogo” entre os instrumentos, chamou a atenção da equipe do Quinquilharia. É com muito orgulho que trazemos, na íntegra e com exclusividade, uma entrevista realizada recentemente com a banda na ocasião do lançamento de seu terceiro single de divulgação do novo álbum intitulado Caravana. 

Como o Cafe Republica surgiu? Por que a banda tem esse nome?
Nos conhecemos no ensino médio, estudávamos juntos numa escola técnica no Maracanã, no Rio. Menos o Barbanjo, que encontramos depois por uma muito feliz coincidência do destino pelas noites de Botafogo. O nome da banda surgiu bem por acaso e não tem nada de fantástico em torno dele. Estávamos em busca de um nome e, condicionados a procurar um bom candidato, a gente acabou vendo República Café estampado na fachada de um bar. Invertemos e gostamos muito do resultado. Curiosamente nos identificamos.

Como foi a formação musical de vocês? Quais conceitos e influências vocês possuem?
A gente sempre curtiu essa onda de tocar, de querer passar algum recado para as pessoas através das músicas que a gente tocava. Nosso objetivo como musico é esse, de transmitir sentimentos e pensamentos através do nosso som da melhor maneira possível. Portanto, queremos mostrar essas sensações e atingir as pessoas. Todo o restante, tudo o que vem como consequência disso, para nós já é lucro. Acho que sempre tivemos gostos musicais bastante próximos, ouvíamos muita coisa em comum e isso nos uniu. Estávamos sempre indo a shows no Circo Voador, no Oi Futuro, assistindo a galera mais independente da música brasileira. Isso de certa forma nos influenciou muito. Hoje em dia escutamos de tudo um pouco. Tem uma banda que temos escutado ultimamente, quando estamos no estúdio reunidos, chamada Tinariwen (que é uma banda Tuareg do deserto e tem um som incrível). Além disso e de nomes bastante difundidos na música brasileira também ouvimos muitas bandas atuais nacionais como Curumin, Domenico Lancelotti, Pedro Pastoriz, O Terno, entre outras. Buscamos sempre novas referências e influências, estamos a todo tempo buscando novas sonoridades inspiradoras, acreditamos que isso é um trabalho fundamental pra qualquer pessoa que busca se aventurar pela música. Claro que junto a essas referências atuais, temos nossas influências mais “enraizadas” como Beatles, Pink Floyd, Mutantes, The Doors, Novos Baianos, Tim Maia, Jorge Ben, assim como influências externas à música, como filmes e pinturas que de alguma forma nos tocam e chamam a atenção.

Como vocês definem a sonoridade da banda?
É algo complicado definir o próprio som, já discutimos muito a respeito disso e acho que ainda é difícil chegarmos a uma conclusão única. Nosso som pode ser definido como psicodélico ou pós-psicodélico. E ao mesmo tempo como música brasileira, agora que estamos compondo em português e aproximando as canções da nossa realidade. Pra ser o mais abrangente e menos limitador possível, gostamos mais da classificação de música brasileira pós-psicodélica, acho que é a definição que mais se aproxima do momento em que estamos.

Integrantes da banda carioca Cafe Republica posam para foto.

Notamos progressões harmônicas nas canções de vocês. Também notamos elementos que nos recordaram a fase psycodelic dos Beatles e até mesmo Mutantes. Vocês se consideram mais progressivos ou psicodélicos?
Já tivemos uma fase mais progressiva, com progressões mais radicais e mudanças rítmicas mais abruptas nas nossas composições, como no “Interlúcido” e até no “Ludere Occultant”. Atualmente a proximidade com a psicodelia é muito mais clara, apesar de haver também momentos mais sóbrios nas músicas, e por conta disso acabamos nos distanciando um pouco do que costumam chamar de “progressivo”.

Quanto tempo levou a gravação do disco? Como foram as gravações e quais são os desafios em gravar hoje, no Brasil?
Começamos a gravação do disco oficialmente em Fevereiro desse ano. Desde então temos praticamente morado dentro do estúdio Camelo Azul, que fica no Rio Comprido, onde o nosso batera Barbanjo, trabalha. O processo de gravação foi muito intenso, pela primeira vez pudemos ter o controle total sobre a produção do nosso disco, e acompanhar cada detalhe, fazer diversos testes, ficar a vontade pra gravar da maneira mais confortável possível. Isso tudo fez uma diferença muito grande para que pudéssemos nos entregar por inteiro ao disco. Cada acorde, cada nota ali tem muito de cada um de nós. Acho que toda banda encontra muitos desafios em conseguir gravar suas músicas. E fazer isso com qualidade é um desafio ainda maior. Infelizmente, no Brasil, a música ainda não é levada tão a sério. E talvez por isso tenha essa dificuldade em encontrar meios e recursos para materializar um trabalho. As bandas tem que se organizar por conta própria, cada um usando o que pode e como pode pra conseguir fazer um trabalho digno.

Hoje em nosso país temos grande apelo comercial e midiático ao pop e ao sertanejo. Como é trabalhar com gêneros que ficam à margem na atualidade?
É árduo e exige perseverança, antes de tudo (risos). Na verdade, há uma parcela do público que ainda resiste à massificação e procura consumir artistas e bandas mais pelo conteúdo do que pela forma, que correr atrás pra descobrir coisa nova e apoia a galera independente. Ainda há espaço pros outros estilos, mesmo que seja um espaço mais apertado e concorrido e isso não nos desanima.

Capa do single “Caravana”. Arte por Talita Hoffmann.

Como banda, qual é o principal objetivo de vocês?
Acho que antes de tudo o nosso objetivo é passar o nosso recado para as pessoas. Saber que nossa música pode despertar os mais variados tipos de sentimentos nas pessoas nos dá a sensação de dever cumprido. Além disso, é muito mágico poder fazer parte da vida de alguém mesmo que seja durante os três minutos em que aquela pessoa parou pra ouvir nossa música. Ou então ver, durante um show, pessoas se divertindo, dançando enquanto tocamos. Isso passa uma energia incrível e essa energia é algo que nos move.

O que inspirou vocês para a composição dos singles ‘Um’ e ‘Jardim dos Olhos’?
Nossas inspirações pra esses dois singles vem de questionamentos nossos enquanto seres humanos. São assuntos que estão sempre presentes nas nossas conversas e fazem parte da gente, do nosso dia a dia. Apenas demos vazão a isso e deixamos que essa questões saíssem de nós e se materializassem nas canções.

Agradecemos imensamente a disponibilidade de vocês. Para finalizar, vocês poderiam mandar um recado para os nossos leitores e elencar algumas das obras (literatura, cinema ou música) favoritas de vocês?
Ouçam nossos singles “Um” e “Jardim dos Olhos”. Dia 01/09 lançaremos o terceiro e último single antes do lançamento do disco, “Caravana”, que também dá nome ao nosso disco. Fiquem ligados! Acho que como unanimidade curtimos muito “Dark side of the moon”, é um disco que ninguém se cansa de ouvir. Além disso, gostamos muito de quase tudo dos Beatles, principalmente o Magical Mystery e do Abbey Road, e do primeiro disco do Secos e Molhados, que costumamos ouvir bastante. Fora esses, tem o “Cavalo” do Amarante que é um trabalho incrível e o “Caymmi e seu violão” do Dorival que é quase que um objeto de adoração pra gente. Em relação a filmes, gostamos muito do curta metragem “Destino” do Disney com o Dalí, do “Zabriskie Point” do Antonioni, que tem um final absurdo, mais psicodélico impossível (risos) e do “Felizes Juntos” do Wong Kar Wai. Gostamos muito dos livros do Aldous Huxley, principalmente “Portas da percepção” e “Admirável mundo novo”, além das poesias do Drummond e do Vinícius, verdadeiras obras primas da literatura nacional. Certamente estamos esquecendo algumas (muitas) coisas, grandes películas que já vimos e músicas que já escutamos, mas acredito que já estamos bem servidos com essas obras de peso citadas acima (risos).

*Colaboraram com o texto desta matéria Paulo César Desidério e Yuri Resende.

EDITADO PORPaulo César Desidério, Yuri Resende
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Vinicius Franco

Vinicius Franco, nascido em 1999 na zona leste de SP, traz consigo uma notável influência estilo de vida do fim da década de 60, também esboça um grande amor às artes e à contracultura conceitual se fixando fortemente ao beatnik e ao movimento gerado pelo progressivo/psicodélico. Ainda hoje ele afirma ter se reunido com Allen Ginsberg e William Burroughs.