Assassinato no Expresso do Oriente (2017)

Um remake agradável, ainda que sem muito a dizer

Em 1º de janeiro de 1934, foi publicado no Reino Unido o romance policial Assassinato no Expresso do Oriente, nesse que viria a ser um dos livros mais populares de Agatha Christie. Protagonizado pelo detetive belga Hercule Poirot, a história se passa, pasmem, no Expresso do Oriente, no qual Poirot embarcou às pressas para retornar à Londres. Todavia, pouco depois da meia-noite, o luxuoso trem é parado por uma tempestade de neve. Na manhã seguinte, um homem é encontrado morto em sua cabine com doze facadas. Com o trem preso na neve, cabe à Poirot desvendar esse misterioso e conturbado crime.

A crise de ideias em Hollywood parece mais forte do que nunca, ou, talvez, apenas a busca pelo lucro fácil. O longa dirigido e estrelado por Kenneth Branagh já é a terceira adaptação da obra, sendo a mais popular a de Sidney Lumet, lançada em 1974, enquanto a segunda foi lançada direto para DVD em 2001. Mas afinal, o remake é bom? É o que iremos descobrir.

O filme já inicia com o pé esquerdo, ao fazer uma introdução desnecessária à Poirot, basicamente para mostrar a sagacidade do detetive. A sequência inicial ainda soa forçada pela solução um tanto inverossímil do problema apresentado, fora que seria muito mais interessante acompanhar a evolução deste ao longo da trama, ao invés de simplesmente vomitar em nossas faces o quanto o cara é foda. Ao menos, a escolha do ator para encarnar o belga foi acertada, já que Branagh nos apresenta um bom Poirot. De perfil mais hollywoodiano, encarna um protagonista carismático, ganhando o apreço do público com a sua excentricidade e senso de humor.

O elenco é recheado de nomes conhecidos, como Willem Dafoe, Michelle Pfeiffer, Penélope Cruz e a talentosa Daisy Ridley, quem tem potencial para construir uma bela carreira pela frente. Os personagens são gradativamente apresentados, embora seja visível que alguns sejam esquecidos em tela, como a Princesa Dragomiroff (Judy Dench), enquanto outros ganham maior visibilidade. Johnny Depp é Ratchett, o homem que viria a ser assassinado, e está em tela tempo suficiente, tanto para apresentar seu personagem quanto para não comprometer o filme com o seu medíocre poder de atuação.

Já dentro do trem, começamos a imergir no clima de mistério, sendo que certamente contribuiu para isso a deslumbrante cinematografia. Recheado de imagens panorâmicas do Expresso, notamos a sua imponência puramente pelo aspecto visual. Os próprios personagens são introduzidos, também, por belos planos-sequência no interior do trem. Figurino e ambientação são igualmente fora de série, com uma invejável riqueza de detalhes, transportando rapidamente o espectador à época em questão. Preparado o terreno, chegamos à investigação em si, e é aí que o filme cai em qualidade. Até começa bem com a apresentação do assassinato, devido, mais uma vez, à belíssima fotografia, que utiliza tomadas aéreas muito bem-vindas para nos mostrar a geografia da cena do crime. Contudo, o desenrolar deixa a desejar.

Até certo ponto, o longa é arrastado por causa do roteiro intrincado. Também influi nisso o ritmo problemático, que careceu de uma edição mais cuidadosa. Muita coisa acontece em pouco tempo, e nisso não ficamos tão instigados quanto poderíamos. A trama mantém o nosso interesse, apesar de tudo, o ponto é que você não se sente inteiramente parte da investigação. As revelações soam pouco impactantes, fora que o potencial dramático dos interrogatórios foi desperdiçado. Como praticamente não há tensão, as conversas entre o investigador e os suspeitos tornam-se menos interessantes. Mal se vê, por exemplo, Poirot deixando o interrogado numa situação delicada, em que se possa desconfiar de uma eventual mentira do mesmo. O fato dos personagens serem rasos também contribui para isso, reforçando essa atmosfera de artificialidade que permeia o filme.

O trailer também soa enganoso ao inserir sequências de ação, sendo que as raras que aparecem são esparsas e pouco empolgantes. Caso fossem retiradas, não fariam falta. As tentativas do filme de soar didático também se apresentam um tanto problemáticas, já que, ao piscar o olho, você já se perde na explicação do detetive. Ao se aproximar do final, a narrativa se torna mais interessante, até culminar na derradeira revelação de quem é o assassino. O plot twist em si é ótimo, já que é algo difícil de “telegrafar”, contudo, sua revelação não é tão eficaz. Faltou o impacto necessário, o dilema moral poderia ser apresentado de modo mais chocante, reflexivo. Um final que poderia ser excelente virou apenas bom. Ao menos fizeram gancho com a vindoura adaptação de Morte no Nilo.

Assassinato no Expresso do Oriente, apesar de suas falhas, se mostra um entretenimento razoável. Como filme de mistério é, no máximo, mediano, porém o bom elenco e o lindíssimo visual garantem um resultado satisfatório. Uma história clássica que já foi contada de forma melhor, tendo sido reapresentada ao público mais para assegurar bilheteria fácil do que por necessidade. É válido principalmente aos que não leram o livro e nem viram as demais versões. No mais, um remake agradável, porém sem muito a dizer.

Assassinato no Expresso do Oriente (2017)
EDITADO PORRafael Serfaty
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Rafael Serfaty

Carioca de gema, estuda Psicologia na UFRJ e é cinéfilo de carteirinha. Assiste de tudo, do pipocão ao cult, sendo grande fã de Alfred Hitchcock.