Com Amor, Van Gogh (2017)

Admito que me surpreendi quando, chegando a bilheteria de um cinema da zona sul do Rio de Janeiro, o funcionário do local me disse que só havia um único lugar disponível na primeira fileira (sim, aquela que precisamos ficar com o pescoço erguido) para a sessão de Com amor, Van Gogh (Loving Vincent, no original). Ora, este era um longa que há muito se ansiava pela estreia, porém não imaginei que haveria essa superlotação que jamais presenciei nem em pré-estreia de blockbuster de super herói.

Ao contrário do sentimento que alguns gostam de cultivar, meu coração se enche de alegria quando percebo que mais pessoas desfrutam das mesmas paixões que eu. Não que eu seja um grande fã das pinturas de Van Gogh ou um exímio conhecedor de sua biografia, mas o artista sempre me cativou e, sinceramente, não esperava um público tão amplo sendo arrebatado pela mesma simpatia.

Enfim, iniciada a sessão, fui arrebatado por diversas emoções com aquele pequeno enredo arrastado que tenta remontar os últimos dias do pintor que teria se suicidado. Atento para o adjetivo “arrastado” aqui empregado pois, diferente do usual, não é pejorativo. O ritmo lento de Loving Vincent é uma oportunidade de desfrutar de cada quadro do filme inteiramente pintado. Um deleite completo!

Não creio que seja oportuno discorrer sobre o roteiro, pois nada mais é do que a dramatização das relações de Van Gogh com pessoas do seu convívio por meio de suas telas que ganham vida fantasticamente. Deslumbrante do inicio ao fim, esta é, de fato, uma experiência cinematográfica única e que, por mais que soe como pleonasmo, precisa ser vivenciada na sala escura dos cinemas.

Nos créditos finais, me peguei em lágrimas com a emocionante história do pintor que viveu a melancolia da forma mais dura o possível e transformou toda esta angústia em obras que viriam a ser reconhecidas como a fundação da arte moderna. Sendo franco com o leitor, não me recordo da última vez que precisei tirar os óculos para enxugar as lágrimas que escorriam pelo meu rosto como um rio caudaloso.

É fato que este filme, assim como toda obra de arte, suscitará um efeito em cada espectador. Particularmente, vi minhas emoções se confundirem com aquelas descritas por Van Gogh em suas cartas e com a profundidade metafórica retratada em seus diversos quadros. A consequência mais do que óbvia desta experiência transcendental? Van Gogh provavelmente será uma das minhas paixões obsessivas nos meses que se seguirão.

Sem maiores delongas e comentários técnicos usuais deste tipo de texto, esta é minha crítica para Loving Vincent. Meus mais sinceros parabéns a cada membro deste projeto maravilhoso. E vou além ao confessar algo. Não sou adepto de atitudes taxadas como excentricidades bregas, isto é, coisas aparentemente banais como aplaudir o por do sol e fazer um minuto de silencio durante a alvorada. Todavia, ao fim da exibição de Loving Vincent, a sala toda foi tomada por aplausos e eu, que não sou hipócrita nem covarde, no meio do meu reservado choro, fiquei de pé para saudar aquela obra cinematográfica particularmente brilhante.  Mais uma obra que o Oscar não deve premiar como merece e que tampouco a decadente Academia merece.

Com Amor, Van Gogh (2017)
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Renato Melmoth

Renato Melmoth é carioca, morador da Tijuca, existencialista e acredita plenamente no amor desde que não esteja envolvido.