Lady Bird (2017)

A simplicidade para um novo olhar sobre si

Quem acompanha o mínimo de lançamentos e críticas de cinema já deve ter ouvido falar de Lady Bird, o filme causou certo alvoroço pela ampla aprovação da crítica. Ainda que não tenha alcançado todas as indicações esperadas, sendo esnobado em melhor direção, o longa conseguiu angariar 4 indicações no Globo de Ouro: melhor atriz para Saoirse Ronan, melhor atriz coadjuvante para Laurie Metcalf, melhor roteiro para Greta Gerwing (também diretora do filme) e melhor filme de comédia ou musical. Mas vamos ao que interessa, Lady Bird realmente merece todos os elogios recebidos?

A primeira questão é deixar claro que Lady Bird não busca grandes impactos em seu desenvolvimento ou em sua resolução, não explora grandes dramas ou questões que em um primeiro olhar pareçam importante, mas é aí a grande sacada do filme: o simples. As questões familiares, as amizades, as fugas, as mentiras, o poder das palavras e, por fim, a redenção de se encontrar em um final encantador e tão simplório quanto todo o resto do filme. Tudo isso constrói um longa capaz de produzir essa gama tão grande e variada de elogios.

Cristine ou Lady Bird, como foi batizada por ela, é uma adolescente de 17 anos cercada por algumas crises: a relação conturbada com a mãe, os primeiros relacionamentos, problemas financeiros e a busca por uma universidade longe de sua cidade natal Sacramento-CA, afinal, ao que parece, Sacramento seria o lar de todos os seus problemas.

O primeiro alerta sobre o filme é que Lady Bird não é dotada de nenhum brilhantismo, muito longe disso, tem problemas em matemática, não é uma performance carismática e parece não se encontrar dentro de todo esse cenário. A relação com a mãe vai de mal a pior e é desse duo que o filme extraí algumas de suas melhores cenas, ou pelo tom dramático ou pelo tom de comédia, ao olhar as mudanças bruscas de humor e o quanto ambas são parecidas, sem conseguir se notarem. Ronan e Metcalf estão perfeitas em seus papéis, nenhuma indicação seria demais para as duas e, apenas de recordar o filme, a atuação de ambas em algumas cenas já lançam a memória ao total afeto.

Acredito que Lady Bird irá deixar muita gente decepcionada, como ocorreu com Boyhood (2014), onde uma parcela do público acusou o filme de Linklater de ser parado, não levar a lugar nenhum e não produzir nenhum clímax. Ao que parece há uma resposta para isso, o cinema não espetacular sempre irá parecer difícil para nós, porque ele nos impede de realizar a fuga da realidade e de sonhar. Lady Bird é um filme cru e simples nesse sentido, honestamente ninguém gostaria de ser Cristine, não há nada de grandioso em sua vida, mas é aí a grande questão, a forma como o simples, o comum e o cotidiano representados no filme, por si só, são capazes de produzir um turbilhão de sentimentos e deixar aquela velha perturbação na cabeça, determinante para os bons filmes.

Quantos de nós já desejou abandonar a cidade natal? Viveu envolto a crises familiares de relacionamentos e financeiras? Fracassou na tentativa de entrar na faculdade? Quis construir uma pessoa em contraposição de ser apenas mais uma perdida na multidão? Inventou mentiras sobre si e sobre todos a sua volta? Se formos honestos, passamos parte de nossas vidas construindo fantasias, buscando construir alguma história que nos liberte dos náufragos a nossa volta. Porém, apenas quando somos tomados pela realidade bruta, de que não importa quão longe se vá, pois esse peso continua presente em nossa vida, somos capazes de desvelar nosso olhar para as pequenas coisas e encontrar essas pequenas gotas de redenção. Essas que fazem a vida valer a pena, as pequenas doses de atenção, de amor em contraposição às overdoses de orgulho. E é aí que Lady Bird é extremamente tocante, capaz de construir um olhar entre mãe e filha sobre as dores do mundo a sua volta, sem que nenhuma palavra seja trocada por ambas em seus momentos derradeiros.

Greta consegue entregar uma ótima receita: uma direção elogiável e simples, atuações excepcionais e uma história carregada de sentimentos. A um primeiro olhar estes podem parecer rasos, mas talvez com uma certa maturidade que não se trata de tempo, e sim de perdas, ganhos e da vida vivida (termo fenomenológico), notados com uma profusão de sensações.

Novamente, tenho plena certeza que o filme vai dividir muita gente, mas vale sem a menor sombra de dúvidas o olhar pessoal, para que cada um consiga produzir sua própria experiência e, aí sim, encontrar a verdadeira autenticidade, que está lá em Lady Bird e deveria estar cada vez mais em nossas vidas. Construir nossos olhares e nossas experiências sobre as coisas, além do que está dado.

Lady Bird (2017)
EDITADO PORRafael Serfaty
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Simony Campello
Estudante de Filosofia, 28 anos, Paulista e curiosa. Fã de cinema de horror e sci-fi. Fanática por música, especialmente uma parte mais sombria e única dos anos 80 e todas as suas vertentes que são muitas. Seguidora de Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa, teve sua vida mudada por Memórias do Subsolo e Crime e Castigo de Dostoiévski.