Ninguém Está Olhando (2017)

Boas temáticas, pouco aprofundamento

Ninguém Está Olhando é um filme de coprodução Brasil-Argentina, dentre outros países, dirigido por Julia Solomonoff. O longa conta a história de Nico (Guillermo Pfening), um ator argentino que, com a promessa de estrelar um filme sobre imigrantes ilegais nos Estados Unidos, se aventura em Nova York esperando que o longa alavanque sua carreira no cinema internacional. Porém, Nico vê seus planos frustrados à medida que o filme sofre uma série de atrasos por imposições dos investidores, hora pelo contexto da obra, hora pelo elenco que deveria ser mudado.

Sem visto e longe do estereótipo latino cansativamente utilizado pela indústria do cinema estadunidense, isso é explorado em diversos momentos do filme, no qual Nico começa a depender de uma série de bicos para sobreviver em Nova York: garçom, babysitter, carregador de malas e o que mais aparecer. Mas diante de toda uma rotina constrangedora de expectativas frustradas e esperanças que se esvaziam na mesma medida que geram alguma euforia, Ninguém Está Olhando carrega alguns bons tons de humor e possui três temáticas que vão se apresentando no decorrer do filme: o fracasso, o orgulho e a fuga. A saída de Buenos Aires, por exemplo, é parte desse processo de fuga de Nico e de uma construção de mistério que o filme se propõe a resolver junto ao espectador. A frustração nos planos promovem um verdadeiro jogo entre o orgulho e o fracasso, que perpassam uma esperança que cria desgastes cada vez maiores. Martin, produtor da novela Rivales, pela qual Nico é conhecido em sua terra natal, é o espectro de todo esse jogo.

Há também o núcleo das babysitters latinas no parque, sendo que um dos trechos mais sensacionais do filme está justamente na discussão das babás sobre como os latinos acabaram se tornando “moda” nos Estados Unidos. Quem assistiu ao maravilhoso terror Corra! vai entender como essa questão de “moda” carrega uma crítica pesada sobre apropriação de algo que sempre foi explorado e que, agora, essa exploração passa a ter um sentido tão ou mais pesado. Porém, esse que era um dos chamariz do filme acaba sendo pouco explorado e a própria obra cai em velhos estereótipos aos quais tenta questionar. O casal brasileiro é tratado de maneira caricata, generalizando determinada postura, o que causa grande desconforto em quem está vendo o filme. Os pequenos crimes cometidos por Nico também produzem um sentimento de angústia, pior ainda é quando ele justifica seus atos com um: “Ninguém olha as câmeras”. É preciso explicar que sim, o fato de Nico não ser notado pelas câmeras, mesmo quando comete atos ilícitos, conversa diretamente com a proposta de isolamento e desaparecimento do personagem em terras estrangeiras do título do filme e do seu estado de solidão durante todo o tempo, mas se o filme se propõe a discutir estereótipos e se utiliza deles para justificar determinados contextos, algo não parece bem.

A questão do pertencimento é outro ponto que o filme busca abordar. Em primeiro lugar vemos o choque das culturas, como a vontade de pertencer àquele lugar se esvai à medida que os sonhos vão sendo perdidos. As aparências, as tradições, os rituais, o tempo, tudo é muito distante do que é Nico em pertencimento à sua terra-mãe em contrapartida à terra estrangeira. O sentido das expressões: “ser” e “estar”, em uma conversa com seu ex-namorado Jeff, tenta retratar isso. Essa é uma daquelas cenas que promete construir alguma profundidade, mas morre na praia. O grande problema é que, ainda que Jeff seja citado em certos momentos do filme, só o encontramos neste momento, em que sua participação é extremamente apagada, a conversa parece ser entre dois desconhecidos, esfriando a boa reflexão que está sendo proposta.

É preciso elogiar como a diretora Julia Solomonoff explora a cidade de Nova York, pois vemos as piores quedas de Nico, sempre em isolamento, diante de uma metrópole tão gigantesca e viva. Em outros planos, vemos pontos não tão belos e muito mais comuns da cidade, a vida de jovens que tentam se adaptar de alguma forma cuidando de bichos, crianças e qualquer coisa que aparecer. O sonho americano não parece tão sedutor nesta realidade e Nova York é só mais uma grande cidade comum, mas novamente, isso passa sem tomar a profundidade que merece. A trilha sonora do filme é boa, em alguns momentos é parte principal para captar a tristeza, a raiva e o desprendimento total das coisas por Nico.

Uma cena em especial incomoda, revelando todo o problema de profundidade do filme, no caso, a briga com a amiga Andrea, mãe do bebê que Nico cuida. As atitudes de Nico acabam sendo descabidas e sua reação posterior é mais descabida ainda, é algo que não produz impacto. Tanto a fala de Andrea quanto as ações de Nico parecem procurar uma lógica que não são capazes de abarcar em tão curto espaço de tempo, ao que parece era preciso justificar um golpe final em Nico, mas não houve um desenvolvimento para isso.

A obra explora as diferenças culturais entre os próprios latinos, mas não se aprofunda nisso, tenta imputar algumas concepções quanto a indústria, mas também não consegue explorar a fundo essas razões. Há uma questão de provação para maturidade e finalmente a libertação dos fantasmas do passado para o desfecho, mas novamente as coisas se resolvem tão rápido que não conseguimos desfrutar deste amadurecimento e desta mudança de perspectiva.

O grande problema é que, ao se falar de tanto, parece que nada é explorado como poderia e deveria. Os assuntos propostos no filme são densos e extremamente relevantes, porém nada cria uma profundidade que envolva o espectador para fazê-lo pensar no longa e causar um impacto quanto ao que acabou de ser visto. O filme passa, as coisas se resolvem e ponto. No mais, Ninguém Está Olhando, tem estreia marcada para o dia 23 de novembro e vale uma conferida, mas não pelos motivos pelos quais o filme tenta se vender, mas sim devido aos aspectos que ele tenta propor explorar, ainda que não consiga se aprofundar na maioria das vezes.

Ninguém Está Olhando (2017)
EDITADO PORRafael Serfaty
COMPARTILHAR
Simony Campello

Estudante de Filosofia, 28 anos, Paulista e curiosa. Fã de cinema de horror e sci-fi. Fanática por música, especialmente uma parte mais sombria e única dos anos 80 e todas as suas vertentes que são muitas. Seguidora de Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa, teve sua vida mudada por Memórias do Subsolo e Crime e Castigo de Dostoiévski.