Após 10 anos de intervalo, a saga Star Wars voltou com tudo em 2015, inaugurando uma nova trilogia deveras promissora. Embora pecasse pela falta de originalidade, já que a estrutura era bastante similar ao longa original de 1977, O Despertar da Força ainda assim se mostrava um excelente filme, aumentando as expectativas para a vindoura sequência. Dois anos depois, Os Últimos Jedi chega aos cinemas como o capítulo central dessa aventura galática. Muito se especulou se este seria um novo O Império Contra-Ataca, porém, felizmente, o resultado é bem mais original do que o esperado. Aqui vemos um filme ousado e que segue caminhos distintos ao que estamos habituados. Rian Johnson merece créditos por isso, não é todo mundo que busca sair da zona de conforto. Mas afinal, é bom? É o que iremos descobrir.

Aviso: essa crítica contém (muitos) SPOILERS!

Após encontrar o mítico e recluso Luke Skywalker (Mark Hammil) em uma ilha isolada, a jovem Rey (Daisy Ridley) busca entender o balanço da Força a partir dos ensinamentos do mestre jedi. Paralelamente, a Primeira Ordem se reorganiza para enfrentar a Aliança Rebelde. Logo nos primeiros minutos, o espectador é brindado com uma bela sequência de batalha espacial, já nos imergindo na atmosfera do filme. Poe Dameron (Oscar Isaac) é um dos melhores personagens dessa nova trilogia, novamente carismático e ganhando novos contornos. Com esse início, vemos a sua expressiva vontade de vencer, tal como a sua rebeldia, a qual lhe dará futuros problemas, ainda que ajude a Resistência em determinados momentos. Esta, por sinal, se encontra em situação delicada, já que foi rastreada através da velocidade da luz. Com pouco combustível e os inimigos em seu encalço, os rebeldes estão em plena desvantagem.

A produção do longa é espetacular, visualmente impressionante. As locações são grandiosas, sendo auxiliadas por uma ótima fotografia e um CGI excelente, muito acima do usual. Ademais, a já mencionada ousadia só tem a acrescentar à trama. Vários caminhos são trilhados, cada um mais imprevisível do que o outro, recheado de reviravoltas que ajudam a prender a nossa atenção. Todavia, o enredo é inchado e possui subtramas descartáveis que enfraquecem a experiência. Além disso, algumas decisões do roteiro são bastante questionáveis. Já já me aprofundo nesses pontos.

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Alguns personagens são mais desenvolvidos, até mesmo por causa da longa duração do filme, o maior da saga. Adam Driver está, mais uma vez, muito bem como Kylo Ren. Vemos um jovem em conflito, que não sabe para qual lado pender. Seus questionamentos internos junto à cobrança de seu mestre, Snoke, frequentemente se traduzem em ódio e amargor. Não por acaso, se mostra ocasionalmente feroz e impulsivo, apesar de vez ou outra hesitar. Sua hesitação fica clara em certos momentos, como quando decide não explodir o compartimento da nave rebelde em que está sua mãe, ainda que isso de nada adiante, já que seus subordinados o fazem. Essa cena, aliás, é eficiente em provocar impacto no público, porém a subsequente se mostra um tanto problemática. É poderoso e emblemático ver Leia usar a força para retornar à nave e sobreviver, todavia a execução é um tanto tosca, fica a sensação de que poderia ter sido ainda mais memorável.

Finn (John Boyega) e a novata Rose (Kelly Marie Tran) possuem de longe o pior arco do filme, não mais do que mediano. Além de excessivamente extenso, este, ironicamente, ainda soa inútil depois, já que nada do que fizeram resultou em alguma diferença no conflito entre a Resistência e a Primeira Ordem. Rose, aliás, é uma personagem um tanto chata, fora que Finn está menos divertido aqui do que no longa anterior. Isso não chega a ser por acaso, pois o timing cômico no geral, ainda que eficiente, sofre de certa irregularidade. Há um número descomedido de piadas, sendo parte delas descartáveis. Preciosos minutos do que realmente interessava, no caso, o núcleo da Rey com o Luke, foram sugados em detrimento disso. Coincidentemente, este é o próximo ponto do presente texto.

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Luke e Rey possuem o que é, provavelmente, o melhor arco de Os Últimos Jedi. A mera presença de Mark Hamill já causa alvoroço em qualquer um, afinal, o que fez a lenda Skywalker se afastar por tanto tempo? Vemos um Luke amargurado e pessimista, que quer o fim dos jedi a qualquer custo. Desconstrói a ideia de herói, mostrando uma figura humana, falha e cansada. Uma interpretação poderosa que realça a evolução de Hamill como ator. Interessante notar como Rey demonstra grande respeito pelo mestre jedi, tolerando suas atitudes grosseiras de início. Daisy Ridley é muito talentosa e tem um baita potencial, e aqui novamente mostra o porquê. Com atuação expressiva de sua intérprete, Rey peita Luke, questionando o seu sombrio estado de espírito cada vez mais. Este começa, aos poucos, a simpatizar com a garota, ainda que nada o faça sair da solitária ilha. É uma relação magnética, na qual estamos ávidos em entender suas psiquês. Contudo, ainda melhor é o desenvolvimento de Rey e Kylo Ren.

O longa é absolutamente certeiro nessa conexão estabelecida por ambos, interessantíssima e que só ajuda a enriquecer a trama. De um lado a luz, do outro a escuridão, mas não se enganem, longe de ser maniqueísta, a dupla oscila entre os dois. Ambos se completam, e aprendemos ainda mais sobre eles. Apesar desse núcleo, no geral, excelente, há algumas decisões questionáveis do roteiro, tal como em outros momentos do filme, que serão devidamente mencionados.

O motivo de Kylo Ren ter adentrado o lado negro, apesar de soar perfeitamente convincente na hora, demonstra algumas falhas de construção do roteiro. Não faz muito sentido Luke ter pensado em matar seu sobrinho, mesmo que ele tenha sido seduzido pelo lado negro. Luz e escuridão são conceitos relativos, o próprio Skywalker chegou a passar por essa sedução nos episódios V e VI. Por mais que tenha sido um pensamento tolo, por um breve momento, que tenha culminado na tragédia, Luke deveria saber mais do que ninguém que matá-lo não seria necessário. Como professor e tio, deveria justamente trabalhar isso com ele, pois certamente teria condições de tirá-lo desse estado mental confuso. Ficou esquisito, pois quase nada nos é mostrado sobre esse passado dos envolvidos. Como era Ben Solo? Como Snoke conseguiu seduzi-lo tão bem? Como era a relação entre tio e sobrinho? Em nenhum momento sabemos, apenas especulamos. Não que precise ser mastigado ao público, mas um flashback ou outro enriqueceria o filme e faria com que nós mesmos tirássemos conclusões mais convincentes. Certamente seria mais interessante do que o arco do Finn em Canto Bright…

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Voltando à nave da Resistência, vemos Poe monitorando os supracitados Finn e Rose de longe, enquanto o próprio questiona a passividade de Amilyn Holdo, a substituta de Leia, que estava inconsciente. Laura Dern não está mal na pele da comandante, porém lhe faltou ambiguidade. Seria muito interessante o público suspeitar de que se tratava de uma espiã da Primeira Ordem, mas não é o que ocorre. Ainda assim, ficamos com um pé atrás em relação à personagem, que aparenta ser excessivamente covarde. Posteriormente, vemos que suas ações eram justificáveis e que, na verdade, a mesma realizaria uma atitude nobre. Infelizmente, como já dito, notamos a inutilidade do arco de Finn. Sobre este, ao menos volta a se reunir com a Resistência, não sem antes derrotar uma das personagens mais desperdiçadas da franquia: Capitã Phasma.

Não se trata da única, diversos personagens, especialmente da trilogia original, foram subutilizados, muitas vezes por não terem uma função narrativa. Todavia, este caso se torna incômodo por outros motivos. Além de vender boneco e aparecer com certo destaque em trailers, o que ela fez? Exatamente, nada! Pouco aparece em tela juntando os dois filmes, para ser derrotada ridiculamente após um combate. Não há problema em ser uma personagem inútil, isso é inevitável, sempre haverá um. Mas incomoda o marketing cretino realizado em cima dela. Por se tratar de uma coadjuvante, é um problema pequeno e relevável, o maior de todos viria em um momento cronologicamente similar.

Muito se especulou sobre Snoke (Andy Serkis), afinal, quem seria o Líder Supremo das forças do mal? O que o levou até ali? Quais seriam suas reais motivações? A tensão do aguardado encontro entre este, Rey e Kylo Ren é alta, e a execução da cena como um todo é ótima. Vemos durante a tortura de Rey todo o poder do personagem, uma cena de arrepiar que nos faz questionar “como alguém tão forte pode ser derrotado?”. Em seguida, vemos Snoke ordenar que Ren execute Rey, o que nos leva a uma reviravolta sensacional. Snoke é completamente passado para trás, sendo deveras imprevisível e poderoso o momento. Na sequência, há um ótimo combate envolvendo sabres de luz, intenso e empolgante, um dos raros momentos do longa assim, por sinal. Agora, mocinho e vilão estavam totalmente definidos. Também agrada a descoberta da origem dos pais de Rey, que nada mais eram do que sucateiros que abandonaram a filha. Uma revelação seca, triste, porém certeira, mostrando que nem tudo precisa de uma profecia, a galáxia é grande demais para isso. Contudo, apesar de todo esse desenrolar ter sido épico, novas indagações surgem, pondo em cheque tudo que acabou de ocorrer.

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Lembra dos questionamentos que eu fiz no início do parágrafo anterior? Então, percebeu que nenhum deles foi respondido? A construção do personagem foi precária, portanto, ainda que a cena tenha sido muito boa, o que levou até ela soa problemático. Por exemplo, imaginemos que Snoke fez um “estrago” em O Despertar da Força, fazendo com que prontamente antipatizássemos com o vilão, ou nem isso, apenas o temêssemos. Snoke não impôs respeito anteriormente a essa cena, quase nada sabemos sobre ele, logo, o impacto de sua morte é diluído conforme pensamos nisso. A sensação é que houve um tremendo desperdício, e jogar fora o talento de Andy Serkins é complicado. Além disso, perpetua-se outro mistério: como a Nova República foi tão desleixada a ponto de permitir a ascensão de uma nova Ordem maligna na galáxia por quase trinta anos?

De volta ao núcleo da nave, os rebeldes buscam fugir sorrateiramente a uma antiga base da Aliança Rebelde que se encontrava próxima. Contudo, o General Hux prontamente descobre tais planos, eliminando cruelmente as naves de fuga, uma por uma. Outro caminho que o roteiro segue que merece questionamentos é o meio que a Almirante Holdo encontrou para salvar os rebeldes. A sacada de usar a velocidade da luz para destruir a nave inimiga é boa, culminando numa cena forte e arrepiante. Ainda que a prática tenha sido eficiente, a teoria contradiz a maior parte do universo Star Wars. Percebem que toda a dificuldade em destruir as Estrelas da Morte, que tanto incomodaram os rebeldes, teria sido muito minimizada se simplesmente mandassem uma nave kamikaze pra explodir essas estruturas? É relevável, foi uma boa solução na hora, só que soou conveniente demais, algo inverossímil com tudo que já tínhamos visto antes. Felizmente, esses furos de roteiro acabam por aqui, pois logo em seguida vem o terceiro ato, que é excelente.

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Acertando em praticamente tudo, o filme decola de vez aí. É impossível desgrudar os olhos de tudo que está acontecendo, bastante envolvente. As naves com o sal vermelho, indo em direção à cópia minimalista da Estrela da Morte, realizam uma das melhores sequências do longa. A neve parece estar sangrando, é sublime, um deleite visual. A excepcional trilha sonora de John Williams, tal como em toda a saga, enriquece ainda mais o momento. O melhor, porém, vem logo depois. Acuados e com escassas chances de vitória, a Resistência se segura como pode, até que Luke Skywalker aparece repentinamente para ajudá-los. Como diabos ele veio parar ali? Como entrou no esconderijo? Nada disso importa, ele chegou e vai ajudar, e que ajuda. Após o aguardado reencontro com Leia, numa cena belíssima, este vai confrontar Kylo Ren. Um específico gesto de mão, que se você assistiu sabe exatamente do que estou falando, resume porque o cara é uma lenda. É então que, junto a Kylo, vem a surpresa, Luke estava na ilha o tempo todo! Amarrando as pontas soltas numa ótima sacada do roteiro, usou uma projeção para enganar o impulsivo sobrinho, que não perderia a chance de acabar com ele assim que o visse.

Os minutos finais são incríveis, o ápice de um terceiro ato que beira a perfeição. Vemos o reencontro de Rey com a Resistência, assim como o sacrifício de Luke, que deu aos rebeldes a chance de se reerguerem para, assim, acabar de vez com a Primeira Ordem. Um momento catártico, em que o velho mestre Jedi, exausto, desaparece, enfim se reencontrando ao Yoda pois, agora, também fazia parte da Força. O desfecho apoteótico nos brinda com um momento extremamente simbólico. Um jovem órfão que ajudou Rose e Finn em Canto Bright sutilmente ‘chama’ a vassoura para a sua mão, para seguidamente contemplar as estrelas. Isso mostra uma nova geração de pessoas sensíveis à Força, sugerindo um elemento-chave ao Episódio IX. Além disso, o anel com o símbolo da Resistência na mão do menino mostra que há uma chama de esperança acesa galáxia afora. Um desfecho brilhante para um ótimo filme. Mais do que um grande entretenimento, um retrato da realidade, sendo um verdadeiro líbelo anti-guerra, contra o fascismo e a opressão desde 1977. E que venha o capítulo final!

Star Wars: Os Últimos Jedi (2017)
EDITADO PORRafael Serfaty
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Rafael Serfaty
Carioca de gema, estuda Psicologia na UFRJ e é cinéfilo de carteirinha. Assiste de tudo, do pipocão ao cult, sendo grande fã de Alfred Hitchcock.