Viva – A Vida é uma Festa (2017)

A morte tratada com delicadeza

A Pixar, quando quer, entrega trabalhos muito bons. Procurando Nemo, Os Incríveis, Toy Story, enfim, exemplos não faltam. Há alguns anos o antes inquestionável estúdio passou por um período turbulento, entregando fiascos como Carros 2 e caça-níquéis como Universidade Monstros, apenas razoável. Felizmente, parece estar reencontrando o seu rumo desde o excepcional Divertida Mente, e Viva é mais um belo exemplar de qualidade dela.

Antes de mais nada, gostaria de salientar o quanto é uma pena a alteração do título original Coco para Viva – A Vida é uma Festa!. Além de tirar o sentido de um elemento fundamental da trama, a própria personagem intitulada Coco teve o seu nome alterado na tradução brasileira, algo até então inédito aqui. Infelizmente, isso se fez necessário, já que aparentemente os brasileiros não tem maturidade suficiente para lidar com os trocadilhos envolvendo o nome original. Choveria memes e marketing negativo. Entretanto, nada justifica o subtítulo cretino e completamente desnecessário, adotado não só nessa adaptação, mas em muitas outras, como o recente Moana – Um Mar de Aventuras. É o equivalente a chamar o público de burro, não precisamos de subtítulos autoexplicativos.

Seguindo a linha do estúdio de explorar novas culturas mundo afora, Coco se passa no México, mais especificamente durante o feriado Dia dos Mortos. Em tempos de intolerância e xenofobia da Era Donald Trump, não deixa de ser uma feliz escolha temática. Acompanhamos Miguel, um menino de 12 anos que quer muito ser um músico famoso, mas precisa lidar com sua família que desaprova seu sonho. Determinado a mudar isso, acaba se envolvendo num duradouro mistério envolvendo sua família.

Miguel é um protagonista carismático, e rapidamente ganha a afeição do público pelo seu espírito sonhador. Contribui também para essa identificação o sentimento de injustiça, pois enquanto o garoto ama a música, sua família a odeia, banindo-a e buscando impedir qualquer contato deste com ela. Acaba sendo uma analogia à repressão familiar que inúmeros jovens sofrem, como na escolha profissional, por exemplo. Miguel almeja se tornar um músico famoso, tendo como inspiração Ernesto de la Cruz, considerado pelo menino o maior de todos os tempos.

Héctor é um bom coadjuvante, e é bacana acompanhar a sua dinâmica com Miguel. O que poderia ser um mero personagem acessório acaba ganhando um desenvolvimento crescente ao longo da narrativa, possui papel importantíssimo. O cão Dante, infelizmente, acaba sendo mais um mascote esquecível, só tendo uma ou outra cena engraçadinha. Ademais, os parentes de Miguel, no geral, pouco são desenvolvidos, o que é compreensível, haja vista que apenas uma parcela de fato merecia maior destaque. Com as devidas proporções, todos recebem espaço suficiente.

Como de costume, o longa animado é um espetáculo visual. Há uma invejável riqueza de detalhes no vibrante mundo dos mortos, alegre e colorido. Trabalho excelente da direção de arte, auxiliado pelo ótimo design dos personagens, com figurinos criativos. O filme não deixa de fazer também críticas sutis, uma delas através da dificuldade dos mortos em fazer a transição para o mundo dos vivos no supracitado dia, numa alegoria à burocracia nos órgãos públicos. O ponto, contudo, mais destacável do filme é a delicada abordagem à morte. Esse conteúdo pode até soar pesado para as crianças na teoria, mas o modo divertido como o longa trata essa questão suaviza a ideia, auxiliado por música e afeto familiar em profusão. Igualmente interessante notar que, além da morte natural, por acidente ou até por assassinato, Viva é poético ao tratar cuidadosamente da morte simbólica, ou seja, o esquecimento.

O humor do filme é inspirado, ainda que não seja excepcional nesse sentido. As gags cômicas funcionam muito devido ao carisma dos personagens, com direito até a divertidas referências a Frida Kahlo, rendendo várias piadas. Outro fator positivo é a ótima trilha sonora, com empolgantes canções, destacando-se a bela “Remember Me”, que frisa a importância da memória na manutenção do afeto.

Uma pena que, em meio a tantas qualidades, o roteiro seja formulaico e previsível. É aquela velha história do protagonista que está na sua zona de conforto, mas entra numa incrível jornada em busca de algo. A narrativa também poderia ser bem mais instigante se o público fosse descobrindo aos poucos porque a música é amaldiçoada pela família de Miguel, mas não, todo o potencial mistério é descartado ao dar o motivo logo nos primeiros minutos. Além disso, há uma reviravolta importante que é telegrafável com certa facilidade por olhares mais atentos, todavia, a forma como esta ocorre é muito boa, potencializando a revelação. Bem bolada também a sacada para definir o vilão, soando até meio irônico em relação aos prévios acontecimentos.

Já em seu ato final, Viva apresenta duas belas cenas emocionalmente carregadas, que podem arrancar lágrimas de um ou outro espectador. Felizmente, não são manipulativas e se apresentam coerentes com a trama. No mais, é sempre bom ver a Pixar voltar à sua boa forma, entregando um ótimo filme, divertido, bonito e que lida com questões áridas de forma acessível para todos os públicos. Mais um acerto desse fantástico estúdio.

Viva - A Vida é uma Festa (2017)
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Rafael Serfaty
Carioca de gema, estuda Psicologia na UFRJ e é cinéfilo de carteirinha. Assiste de tudo, do pipocão ao cult, sendo grande fã de Alfred Hitchcock.