The Killers – Wonderful Wonderful (2017)

Novo trabalho da banda americana é inconstante e mais parece um disco solo de seu vocalista, Brandon Flowers

Logo após seu surgimento, com o excelente disco de estréia Hot Fuss de 2004 e seu sucessor Sam’s Town de 2006, o grupo capitaneado por Brandon Flowers foi alçado ao patamar de grandes bandas da década, junto de Franz Ferdinand, Strokes e um pouco atrás, Interpol.

O The Killers fez por merecer toda a atenção que receberam por seus dois primeiros trabalhos. Canções como Mr. Brightside, Somebody Told Me e Read My Mind são, como dizem por aí (cof cof), hinos do começo dos 2000. Mesmo com a repentina consolidação, a banda lançaria seu trabalho mais rico musicalmente e preferido deste escriba: Day and Age, de 2008. É também em seu terceiro disco, após quatro anos de estrada, que o The Killers lançaria seu maior sucesso e seu refrão mais nonsense (all we human or all we dancers?) em Human.

Ao fim da turnê de Day and Age em 2009, a banda tira um tempo sabático para repensar a carreira. Após poucos shows em 2010 e 2011 e um disco solo Brandon Flowers, o guitarrista Dave Keuning, o baterista Ronnie Vannucci e o baixista Mark Stoermer juntam-se a Flowers para as gravações do previsível e mais fraco trabalho da saga killeriana até então, Battle Born de 2012. O próprio vocalista afirmou à NME, em 2015, que o grupo voltaria aos estúdios pois Battle Born “não era bom suficiente”.

Após dois anos da promessa de Flowers, surge Wonderful Wonderful, lançado em setembro deste ano. O quinto disco do The Killers não supera seu antecessor, pelo contrário, é apenas um arremedo de algum trabalho solo de seu vocalista. Dois dos integrantes originais da banda anunciaram que não sairão em turnê para divulgar o novo trabalho, e essa inconstância interna talvez tenha sido preponderante para o resultado final do álbum.

A excelente faixa-título, que abre a sequência de dez músicas, empolga em seus mais de cinco minutos. A linha de baixo de Stoermer e as batidas precisas de Vannuci transformam a canção em um rito tribal, acompanhada de um forte refrão “motherless child, follow my voice” (criança sem uma mãe, siga minha voz).

Mas a partir daí, a coisa desanda. Em seguida surge The Man, o single e carro-chefe da nova empreitada killeriana. Comercial e pop no sentido mais chiclete da palavra, The Man mostra que os Killers têm ouvido muito Maroon5 (e sim, isso é algo ruim).

Em Rut e Life To Come, duas das mais descartáveis do disco, a fórmula de The Man é seguida à risca. Já Run For Cover é uma boa surpresa no emaranhado confuso costurado pela banda americana. Com um riff de abertura que relembra o Joy Division, Run For Cover deverá ser um dos pontos altos do show do Lollapalooza em abril de 2018, em São Paulo.

Tyson vs Douglas mostra o quão criativo é o baixista Mark Stoermer, apesar de uma letra estranha de Brandon Flowers: o tema para a sexta canção de Wonderful é a histórica luta de boxe entre Mike Tyson e Buster Douglas, vencida por Douglas após nocaute no até então invicto Tyson. Flowers canta, direcionando sua descrença para o perdedor, que teve de fechar os olhos “apenas para parar de chorar”. Bizarro, pra dizer o mínimo.

Some Kind Of Love é a balada nunca antes feita (ou pensada) pelo The Killers: simples, romântica e direta, dedicada à mulher de Flowers, com problemas psicológicos desde o início da carreira do marido.

Quem ouve o disco custa a acreditar, mas em Out Of My Mind Flowers mostra suas influências musicais: cita Bruce Springsteen, Paul McCartney e até Graceland, famosa mansão de Elvis Presley.

Em The Calling, o cantor declama capítulos da bíblia (ele é declaradamente mórmon) e faz alusão a “um chamado” pelo qual está esperando. Apesar do tom religioso, a música tem uma pegada drum ‘n bass que não condiz com as frases cantadas por Flowers. Com o forte refrão, The Calling é o ponto mais alto de Wonderful Wonderful.

Ao contrário de todo o restante, seu encerramento é convincente. Have All The Songs Been Written? lembra um dos maiores sucessos da banda, All These Things That I’ve Done, e questiona o ouvinte se “todas as canções já foram escritas”. Tema interessante, baseado em uma troca de e-mails de Flowers com o amigo famoso Bono Vox. Talvez esse questionamento seja reflexo do fraco desempenho da banda após cinco anos de hiato.

Após os quase quarenta e cinco minutos, Wonderful Wonderful mostra um The Killers diferente daquele conhecido por todos nós no longínquo ano de 2004, inclinado à direção de bandas como o Coldplay, com mais dúvidas do que certezas para o seu futuro.

Wonderful Wonderful - The Killers (2017)
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