Em 2013, fomos apresentados ao novo longa escrito e dirigido por Spike Jonze – diretor conhecido por Quero Ser John Malkovich, Adaptação e Onde Vivem Os Monstros – que trazia uma proposta interessante: um homem sozinho após o término de um relacionamento duradouro e com tendências à antissociabilidade que conhece um novo programa à venda, isto é, um sistema operacional que possui inteligência artificial e que, com o tempo, aprimora sua capacidade de relação e de “possuir” uma personalidade própria.

Quando é posto dessa forma, até aparenta ser um enredo simplista, mas não, Ela tem metáforas, reflexões, questionamentos, quebra de tabus, crítica social, etc. Lembrando que este artigo contém spoilers sobre o filme e que é apenas uma interpretação própria.

O mundo se relacionando cada vez mais com as máquinas

Por mais que esteja óbvia a afirmação acima, Jonze traz a reflexão/metáfora de forma maravilhosa. Um homem que se apaixona e acaba tendo uma relação amorosa com um produto tecnológico. Não é exatamente o mundo em que estamos vivendo atualmente? Com várias mídias sociais, avanços na tecnologia, jogos que misturam a realidade com o mundo virtual, fica claro que a absorção e a alienação dos produtos tecnológicos estão cada vez piores, a ponto de termos relações melhores olhando para as telas de nossos celulares do que para os olhos de outras pessoas. O longa mostra isso!

Conforme o tempo passa, essa tendência vai se agravando, as relações sociais ficam menores e, por consequência, a sociedade fica – ironicamente – mais anti-social. Porém, a cada momento de interação social nas ruas, por exemplo – mostrado brilhantemente por Jonze em sua direção – o foco vai nas pessoas que no começo do filme passavam despercebidas conversando com outras, já no seu segundo e terceiro ato as pessoas estão apenas olhando para os “celulares”. Veja um exemplo nas imagens abaixo:

Na primeira imagem vemos uma cor mais lúcida, viva, com pessoas interagindo no fundo.

Já na segunda imagem algo mais melancólico, com cores mais frias e com pessoas menos interativas. É claro que usei um exemplo dentro da história de ficção do filme, porém, as imagens mostram exatamente o que o diretor quis demonstrar.

Toda forma de amor é válida

Um assunto polêmico é a ideia retrógrada e ultrapassada de que o amor é válido apenas quando são homens e mulheres na relação, ou quando se usa o argumento infantil “Deus criou Adão e Eva e não Adão e Ivo”. Outro mérito e reflexão de Ela é a forma espetacular de como combatem essa ideia. A demonstração de que um homem e um aparelho tecnológico que possui personalidade e condições de vivência podem ter um relacionamento, amar um ao outro e até pensarem em um futuro juntos é algo tão absurdo? Obviamente que estou usando um exemplo de ficção, mas é exatamente pela ficção que Jonze faz esse protesto, simplesmente com a ideia de mostrar que todas as formas de amor são válidas e que não cabe à sociedade, igreja ou político ter que definir isso.

Além de um filme excelente em sua fotografia, direção, roteiro e atuações, Ela traz reflexões importantes, pensamentos profundos, diálogos pertinentes e uma redenção de Jonze em criar um romance diferente do clichê. Tudo isso torna o longa uma obra imprescindível e obrigatória para qualquer cinéfilo que se preze.

EDITADO PORRafael Serfaty
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Otavio Gaudencio

Estudante de psicologia, considerado por muitos um “cinéfilo” e um “fanático por Quentin Tarantino”, 20 anos de idade e niilista desde os 18.