Em Nome do Pai

Cuspi teu nome no chão. E pisei com força. A força que outrora já empregada na cama. Malditos lençóis, antes lonas de nosso picadeiro luxurioso, agora mortalhas de minha pútrida comiseração. Contei até três, pensando no Pai, Filho e em seu Espírito Santo. A parte conservadora de minha alma se riu, orgulhosa de tal escárnio. E segui em frente com o ritual. Cantei tua tragédia. Fumei tua desgraça. Bebi  —  e como bebi —  à tua desolação. Decidi que para te exorcizar, assim como o feito com a santa (?) trindade, e para tal precisava te evocar. Conjuro seus lábios, quentes, arrojados, bem perto dos meus, só para os negar. Os lábios que já fizeram meu caralho delirar em sonhos latejantes, hoje são lábios que só inspiram meu escarro, substância remanescente da gripe de tua presença. Chamo tua barba desgrenhada, aquela mesma que me arrancava espasmos prazerosos quando cruzava minha barriga descendo para além do umbigo, hoje me instiga ao vômito. Convoquei tua pica, aquela que já não jorra mais o sortilégio que me prendia em teu gozo, que fazia minha boca tremer de sede, e hoje nada mais é do que o cancro solitário de meus pesadelos fálicos em que fiz questão de te trancafiar. Malditas saliências, delas só resta o desgosto. Com asco entoo teu belo nome e seu exótico excesso de consoantes, e amaldiçoo teu andar engraçado, desprezo teu charme — e que charme filho da puta! Tuas falanges, habilidosas exploradoras de cada curva, reentrância e cavidade de minha anatomia, que descambem a explorar o mesmo círculo do inferno em que me conduziram profundamente na transa. E que belo inferno nós construímos, gargalho novamente. És o engenheiro e arquiteto de teu, meu e nosso naufrágio nas chamas ardentes da decadência. Difícil é saber exatamente até onde íamos na nossa foda. Me rio novamente de pensar que teu (meu, nosso?) sexo já não vale nem mais o troco de meu rivotril. À lembrança de teu peitoral esculpido em tuas sessões de futilidade, tão excitantes de assistir, e seus pelos esgarçados, tão gostosos de acariciar, me atravessam calafrios de repulsa. Minha mente se revolve, como um certo homem solitário rola de um lado para outro naquela maldita cama de casal que nos metemos a comprar com uma rapidez desnecessária para um casal tão novo, tão cru…. Tão… Fodido. Com o orgulho luxuriante de deuses gregos, cruzamos pomposamente o mar de nossa sina trágica. Fodemos, rimos, abraçamos, aguentamos firme, amamos, sabotamos, xingamos, gozamos, choramos (e choramos, e choramos, nem sei quantas et ceteras poderiam traduzir o quanto choramos), traímos, rezamos, arrependemo-nos, gozamos novamente (e novamente, e novamente…), golpeamos, despedimo-nos… E então, meus olhos se voltam para o meu reflexo nesse copo de Whisky (sim, aquela mesma porra de Whisky que compramos em Porto Seguro, cuja cor me lembra o âmbar de teus putos olhos no sol, olhos de uma doçura ambígua que só poderiam trazer a desgraça e a peste), e a espiral neste líquido me traz a revelação de que, mais uma vez, eu não estou tirando você de dentro de mim. E me odeio por isso. Me açoito, me condeno. Noite após noite, revivo nossas fantasias mais profanas procurando a santidade na fuga de tua memória, noite após noite choro tuas promessas cruéis envoltas em seus braços fortes e mal intencionados, numa procissão masoquista que já fora um prato cheio para vários terapeutas. Nem todos os deuses poderiam me livrar do jugo do teu duvidoso “eu te amo”, os grilhões de teus sussurros sacanas e/sentimentais em meus ouvidos frios, ou até mesmo às coisas mais banais como a excitação ao pensar naquela tua bunda diabólica me esperando ao chegar em casa do trabalho. As grades geladas de teu abraços passados esfriam minhas carnes e estremecem meus ossos, a sirene da minha consciência alertando que nunca vou sair. Como quero sair! Como quero ficar! Sozinho não consigo, apelo para o divino. Em nome do Pai, eu peço. De meu pai, que me amaldiçoara por te querer, de teu pai, que causara aquela cicatriz em tua perna quando nos viu juntos. Do Pai Yaweh, que nos presenteou com o aval para descermos juntos as escadarias de mármore do inferno ao celebrar nosso infame amor, com toda a pompa e a circunstância que as abominações como nós, os queridos de Satanás, merecem. Ah, o amor! Em nome do pai, eu peço. Não para apreciar mulheres, (já não sou tão prepotente de achar que mereço tal milagre catártico de mudança e de salvação). Mas sim, para parar de te apreciar. Eu te exorcizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

P.S.: Pai, perdoa-me em meu espírito fraco. Mas me permito pedir (enquanto limpo de minhas mãos o decadente resultado da tentação de minhas lembranças), traga meu maldito demônio de volta para mim.

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