Sucesso de crítica e bilheteria, O filme da minha vida, novo longa de Selton Mello, estreou nos cinemas no início de agosto. O terceiro filme assinado pelo diretor brasileiro conta a história de Tony Terranova (Johnny Massaro), filho de um francês com uma brasileira, que volta dos seus estudos na capital no mesmo dia em que seu pai (Vincent Cassel) parte sem maiores explicações, abandonando não apenas ele mas também sua mãe (Ondina Clais).

Avaliado pelo Grupo Quinquilharia com nota máxima, O filme da minha vida encanta pela delicadeza ao tratar de temas como a memória, o amadurecimento e o amor pelas artes. Desta forma, fomos atrás de Selton Mello e conseguimos uma entrevista exclusiva por e-mail com o diretor em meio ao seu turbilhão de compromissos relacionados ao lançamento do longa. Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Selton, primeiramente, parabéns pela belíssima obra que você está levando aos cinemas. Como tem sido viajar o Brasil para lançar O Filme da minha vida? Você tem acompanhado as críticas sobre o longa?
Obrigado pelo espaço e fico feliz de saber que o filme tocou vocês, do site Quinquilharia. Li pouca coisa, estou trabalhando muito, mas a onda do filme está enorme. Uma onda de afeto e de gratidão por algo tão afetuoso e poético em tempos cinzas.

Como você enxerga o cinema brasileiro nos últimos 15 anos, de modo geral? Quais são os avanços que mais lhe chamam a atenção?
Crescemos muito. Tecnicamente e criativamente. Assisto sempre que posso tudo que produzimos, e acho lindo ver tanta expressão distinta. Somos um país rico culturalmente, sinto falta de ver mais olhares fora do eixo, mais filmes de Belém, Manaus e de tantos lugares e de tanta gente que possui a capacidade de fabulação.

Selton Mello atuando em “O filme da minha vida”.

O roteiro de O filme da minha vida é baseado em um livro de Antonio Skármeta e o longa possui uma trilha sonora escolhida a dedo. Quais são as suas principais referências na literatura e na música?
Cinema é uma arte que sintetiza todas as outras. Não consigo imaginar um filme meu sem música. E neste caso, um filme-memória, que mostra a época da transição do rádio pra TV, foi fundamental pensar na música no roteiro. Toco violão, guitarra, baixo, bateria, sou bem musical. Tem músicas que eu adoro e que dou um jeito de colocar no filme, como “I put a spell on you”, Nina Simone, neste caso específico. Plinio Profeta compôs lindamente toda a trilha original, e juntei um time pra pesquisar canções da época: Plinio, eu, Marcio Hashimoto, Gustavo Montenegro e Neto Ponte. Juntos, levantamos canções que embalam os sonhos dos espectadores.

Você tem dito em suas entrevistas que “a beleza salvará o mundo”. Como você aplica essa máxima à sua própria vida, ao seu cotidiano?
O afeto está na minha vida, meu núcleo familiar é bem fechado, então é natural que isso se espalhe para meu trabalho. Não separo cinema da vida. Através da via afetiva que esse filme foi concebido percebo que o público pode receber o filme como quem recebe uma flor. É isso. Em tempos estranhos aqui e no mundo, este filme é uma flor no asfalto. E meu trabalho é bem intuitivo. Parto de uma impressão do livro para encontrar minha expressão no filme. Caminho tênue entre algo comovente, mas não piegas. Esse limite foi um desafio e tanto. Mas não tenho medo de tocar as pessoas. O filme não é realista, uma das capacidades do cinema é poder criar um mundo, com suas próprias leis e linguagem. Pelo que tenho sentido, viajando o Brasil todo com o filme, percebo que as pessoas esperavam algo assim. Um filme-memória. Um filme gentil, em tempos nada gentis. Este é meu caminho como realizador, ocupar a tela com minha sensibilidade e, assim, poder transformar quem se depara com o que faço. Esta frase é do Dostoievski e se aplica perfeitamente aos dias de hoje. Esta é minha mensagem na garrafa que jogo ao mar.

Selton, agradecemos imensamente a sua paciência e disponibilidade. Tenha certeza que continuaremos acompanhando com grande ânimo os seus trabalhos na televisão e no cinema e torcendo para que seu sucesso seja ainda maior. Para finalizar, você poderia mandar um recado aos nossos leitores e indicar uma obra (além das já citadas nesta entrevista) que dialogue um pouco com a ideia de tornar o mundo um lugar mais belo com a arte?
Eu que agradeço a delicadeza! Nos dias de hoje isso é algo raro. Bem, indico que leiam Machado de Assis, Eça de Queiroz, Gabriel Garcia Marquez, que vejam filmes do Woody Allen, Truffaut, e que vivam com os poros abertos e o coração cheio de vontade de encontrar o mundo.

*Colaboraram com esta entrevista Juliana Suarez, assessora de imprensa do Grupo Quinquilharia, e toda a equipe da redação do portal.

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Yuri Resende

Yuri Resende é carioca da gema e nasceu em junho de 1997, embora muitos afirmem, devido à sua personalidade nostálgica e saudosista, que tenha nascido algumas décadas antes. Autor do livro “Apaixonante Caos”, estuda História na Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente exerce a função de editor-chefe no Grupo Quinquilharia. Apaixonado por literatura e música, é leitor voraz de Oscar Wilde e fã compulsivo dos Beatles e dos Smiths.