A indispensável coragem de cada dia

“Não importa o que a vida fez de você, mas o que você faz com o que a vida fez de você.”
Jean-Paul Sarte

Podemos dizer que o sol sempre volta, que todas as coisas passam e até mesmo que não há remédio melhor do que um dia após o outro. Eis aqui um punhado de expressões populares banhadas em pieguice e que o leitor pode até mesmo adjetivar como sentimentalóides. Ora, talvez precisemos nos apegar a estas ideias tão banais para suportar este fardo inadvertido chamado viver. Raramente escrevo algo neste viés tão otimista, mas me pergunto se o mundo não necessita de mais reflexões felizes – o que não exclui a racionalidade, é importante frisar.

Talvez a vida seja curta demais para deixarmos nos abater pelo plano que não deu certo ou pelo amor que não vingou. Amor, este sentimento rico e maldoso que ora abrilhanta, ora destrói os contornos do cotidiano humano. Penso nos amores perdidos, platônicos, proibidos… Todos estes amores que, de alguma forma, não conhecem a realidade. Ora, o que fazer quando a vida faz de nós um amargurado deitado sob o toldo na calçada fria e úmida? Evoquemos Nietzsche, Oscar Wilde… Estes imortais que já nos advertiam sobre a impossibilidade de viver sem a presença da arte. Quando a vida nos dá as costas, o que nos resta é a mais pura e simples arte. Nosso coração será invariavelmente maltratado, mas nossa alma jamais pode ceder aos encantos da melancolia degenerativa.

Sempre há uma carta na manga, as chances jamais se esgotam para quem persegue furiosamente o sentido desta tão confusa existência. A guerra da vida não se perde em um dia, em uma semana e tampouco em um ano. E viver é essa guerra constante contra tudo que nos faz ter medo: medo de arriscar, de experimentar, de sentir a vida plenamente. Acordar é lembrar de tudo que existe de maligno neste tão pobre mundo e ter forças o suficiente para recordar das coisas boas que nos rondam, das nossas particularidades enquanto indivíduos.

Levantar da cama e encarar os primeiros raios solares que refletem na janela exige uma coragem distinta de cada um, requer um exercício cotidiano de se apegar às pequenas coisas que são capazes de produzir, ao fim e ao cabo, um dia mais belo. Não há como evitar a chuva, mas há sempre a possibilidade de dançar com o poste na rua e evocar tudo de bom que o universo já nos concedeu.

Dias ruins sempre virão, as dificuldades jamais se cessam… É a nossa postura frente a tudo isso, entretanto, que determina se vamos encarar essas experiências intrínsecas à vida com um sorriso no rosto e uma pitada de bom humor ou com a melancolia na face e um desejo irrevogável de morte. Ora, o sapato vai apertar o calo de todos em algum momento, então por que não ser aquele que estará bem para oferecer o esparadrapo salvador que permite continuar a caminhada sem dor?

Esta é só uma crônica passageira, superficial ao extremo, quase que ingênua, escrita nesta animosidade de início de ano, concebida ao som de um disco ao vivo da Legião Urbana e publicada em um tempo onde a maioria só quer odiar alguma coisa. A tão sonhada revolução, seja ela o que for pra você, talvez jamais encontre seu inicio sem antes cada um encher o peito de serenidade (e coragem, uma vez que são incontáveis as coisas bonitas que cabem dentro deste substantivo).

Força, sempre! Muita luz!

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Renato Melmoth
Renato Melmoth é carioca, morador da Tijuca, existencialista e acredita plenamente no amor desde que não esteja envolvido.