Morrissey – Low in High School (2017)

Crítico e mordaz, Morrissey apresenta seu melhor álbum desde 'You Are The Quarry'

Visto como um Deus por seus fãs e persona non grata em diversos meios, é inegável a importância de Morrissey para a história da música. Apesar das parcas tentativas em reduzi-lo ao posto de “mero” ex-vocalista da cultuada banda The Smiths, o britânico criou para si uma aura sacra e cada vírgula escrita por ele torna-se parte de um evangelho para seus seguidores. Low in High School, seu novo álbum, incorpora quase todos os elementos de suas pregações mais recentes.

Morrissey não parece preocupado em conquistar as novas gerações ou apostar em fórmulas hoje vistas como genéricas para conquistar os topos das paradas. ‘Spent The Day In Bed’, principal single de divulgação do novo álbum, possui certo apelo em seu arranjo, é verdade, todavia nada que fuja do que se espera de Moz quando nos atentamos à letra. A canção talvez não seja a melhor do novo disco, porém certamente é aquela que melhor sintetiza a mensagem que o cantor deseja passar ao longo de suas doze canções inéditas.

Um interessante e polêmico discurso ao longo de doze canções

Produzido por Joe Chiccarelli, Low in High School se inicia com uma sequência de cinco canções notáveis. Em ‘My Love, I’d Do Anything for You’, Morrissey faz sua crítica clara a diversos aspectos da sociedade contemporânea mesclada com a sutileza de um discurso quase romântico. Seguimos com ‘I Wish You Lonely’, uma confissão de solidão e aversão a tradicionais instituições como a Monarquia, a Elite, o Estado e a Igreja. Um pouco queixoso demais para alguém que os críticos tem apontado como um reacionário vergonhoso, não acham?

Seguimos com ‘Jacky’s Only Happy When She’s Up on the Stage’, ao meu entendimento, resgata por meio de metáforas perspicazes a polêmica discussão do Brexit na qual o cantor se posicionou à favor da retirada do Reino Unido. Completam esta boa sequência de abertura, ‘Home is a Question Mark’ (canção cuja versão ao vivo me parece melhor que a gravada em estúdio, assim como ‘All The Young People Must Fall in Love’) e ‘Spent The Day In Bed’.

Em ‘I Bury the Living’, nos deparamos com uma letra complexa e sensível que soa como um apelo de Morrissey contra o nacionalismo ufanista que leva soldados diretamente à morte em guerras, um discurso de humanização destas pessoas que deixam suas vidas para trás para lutar por uma grande coisa que não se sabe exatamente o que é. A forma que o britânico encontrou para fazer isso pode soar como uma ironia de mal gosto para aqueles que não conhecem seu estilo ou que preferem interpretar sua obra sob o pior viés possível. A canção, uma das melhores do álbum, é complementada pela subsequente ‘In Your Lap’, que também trata dos horrores da guerra e dialoga melodicamente com sua antecessora.

Capa do álbum ‘Low in High School’, de Morrissey.

‘The Girl from Tel-Aviv Who Wouldn’t Kneel’, por sua vez, é uma das duas canções não muito agradáveis do disco pecando por um ritmo confuso, uma experimentação que parece não dar certo acompanhada por versos simplistas. Não estamos diante de um desastre musical, mas a qualidade da canção destoa claramente do resto do álbum, assim como a confusa ‘Israel’. O discurso anti-autoritário que ‘The Girl from Tel-Aviv Who Wouldn’t Kneel’ busca apresentar toma contornos mais claros em ‘Who Will Protect Us from the Police?’, cuja resposta para o título debochado vem totalmente carregada de ironia no verso “Baby, God will!“. Esta, definitivamente, é uma música com a cara de Morrissey e um clássico instantâneo – inexplicável não ter sido lançado como single.

‘When You Open Your Legs’ é outra letra inteiramente carregada de deboche, com uma pegada interessante em seu arranjo. As apresentações ao vivo desta canção deixam a desejar quando comparadas com a versão em estúdio. Por outro lado, ‘All The Young People Must Fall in Love’ é muito melhor quando apresentada ao vivo por Morrissey e sua banda, com um ritmo mais excitante e que faz mais jus à letra que apresenta uma das melhores estrofes de Moz: “Spend more on nuclear war / If that’s your chosen illusion / Incinerate innocent men and women and children/ The kids around here have the best idea“.

Considerações Finais

Low in High School é, definitivamente, o melhor e mais regular álbum de Morrissey desde You Are The Quarry, de 2004. Após o irregular e fraco World Peace is None of Your Business, o cantor ressurge mostrando que ainda sabe compor com qualidade e ainda tem mensagens extremamente inteligentes a passar. Para alguém taxado de reacionário, Moz nos apresenta um álbum que crítica diversos elementos naturalizados pela sociedade – com grande destaque para o discurso anti-autoritário e pacifista do artista.

Ao contrário de Years of RefusalRingleader of the Tormentors, Morrissey só derrapa, como já fora mencionado, em ‘Israel’ e ‘The Girl from Tel-Aviv Who Wouldn’t Kneel’. São boas canções para o atual padrão da indústria musical, mas que deixam a desejar quando comparadas ao restante do belíssimo trabalho apresentado pelo artista em Low in High School.

Já circula na imprensa estrangeira alguns textos sobre o recente trabalho escritos por gente de evidente má vontade para com o cantor, todavia o leitor mais cuidadoso reconhecerá estes tipos logo pelos primeiros parágrafos. Não estamos diante, obviamente, de obras magistrais como Viva Hate, Your ArsenalVauxhall and I ou Bona Drag, mas Morrissey se mostra extremamente competente e sagaz do alto de seus quase sessenta anos de idade. Low in High School é um disco com críticas perenes e produzido para ser ouvido várias e várias vezes, com uma absorção diferente em cada audição das preciosas mensagens de seu criador.

Fiquemos no aguardo de que Morrissey venha ao Brasil deliciar seus seguidores por aqui com este novo capítulo de seu Evangelho. Aos devotos seguidores, o Messias britânico parece dizer a cada música de seu novo álbum: “ouçam, seu Deus está mais crítico e mordaz do que nunca!”.

Morrissey - Low in High School (2017)
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Yuri Resende

Yuri Resende é carioca da gema e nasceu em junho de 1997, embora muitos afirmem, devido à sua personalidade nostálgica e saudosista, que tenha nascido algumas décadas antes. Autor do livro “Apaixonante Caos”, estuda História na Universidade Federal do Rio de Janeiro e atualmente exerce a função de editor-chefe no Grupo Quinquilharia. Apaixonado por literatura e música, é leitor voraz de Oscar Wilde e fã compulsivo dos Beatles e dos Smiths.