Morrissey continua sendo o mesmo rebelde dos anos 80

Alt-right? Reacionário? Morrissey continua sendo uma voz rebelde entre hipócritas

As sociedades, em geral, possuem em boa estima a ideia de ter um herói, um mito salvador. Todavia, o que as pessoas realmente apreciam é possuir um antagonista em comum para odiarem coletivamente. Este ser vil, mal quisto por todos, muda de face de acordo com as circunstâncias. É verdade que alguns ocupam este famigerado posto por mais tempo que outros, mas a rotatividade é via de regra.

Ora, não vou discordar neste emaranhado de parágrafos que alguns humanos desprezíveis merecem mesmo a repulsa pública – nem precisamos ir até a Casa Branca para apontar um famoso exemplo concreto, basta olharmos para nosso digníssimo presidente Michel Temer. Desejo dissertar, entretanto, sobre aqueles que entram na mira da metralhadora pública de modo injusto, por emitirem opiniões que nem sempre soam muito aprazíveis aos nossos ouvidos. Morrissey, desbocado como só ele, recentemente colou um alvo na testa e praticamente implorou que apertassem o gatilho ao emitir algumas falas, no mínimo, controversas.

Tendo em sua base de fãs, majoritariamente, pessoas ligadas às ideias reivindicadas pela esquerda, as redes sociais borbulharam de comentários decepcionados. Ora, particularmente, por conhecer a trajetória do ex-vocalista a fundo, acredito que ele tenha se expressado muito mal – algo incomum para alguém com a capacidade de manipular as palavras como o Morrissey, sejamos sinceros -, mas esta não é a primeira vez que o ídolo de gerações expressa seus sentimentos de modo, no mínimo, insólito.

A trajetória de polêmicas de Moz se iniciou ainda na década de 80 quando foi acusado de fazer apologia à pedofilia em algumas músicas do primeiro álbum dos Smiths. Hoje, excluindo alguns alienados de plantão, todos sabem que as referências nas letras são a casos bizarros que aconteceram na cidade de Manchester. Morrissey, entretanto, nunca foi um homem de guardar para si seus sentimentos. Anunciou nos álbuns subsequentes que comer carne era uma atitude equivalente ao assassinato e desejou profundamente a morte da monarca Elizabeth II. Satisfeito? De modo algum. Colocou a cabeça de Margaret Thatcher na guilhotina em seu álbum de estreia na carreira solo, Viva Hate, além de falar publicamente que desejava que a então primeira ministra tivesse sido assassinada num atentado em 1984.

Enfim, o histórico de Morrissey em verbalizar polêmicas é gigantesco e esta é uma característica sua, intrínseca ao jovem que emergiu de Manchester para traduzir em canções o sentimento de boa parte de sua geração e das que a sucederam. O fato é que, em suas canções, este britânico, hoje tão rotulado como alt-right e reacionário, sempre se propôs a falar das coisas que ama e odeia a fim de falar com gente idêntica a ele. Os fãs de Morrissey são, na realidade, a imagem daquele garoto que estava no quarto escuro sentado lendo e escrevendo furiosamente e se preparando a fim de estar pronto quando Marr batesse a sua porta com a oportunidade de falar ao mundo.

Morrissey vive o sonho de um mundo que possa ser liberto de coisas vistas como negativas ou vulgares e de pessoas banais. Não satisfeito em idealizar, ele fala sobre isso abertamente. Esta coisa que chamamos de ‘vida’, não pode se limitar a uma sobrevivência vazia de sentido na filosofia do cultuado cantor. Seus fãs, como uma verdadeira seita, aceitam essa visão de mundo e o seguem não por concordar com tudo aquilo que ele diz, mas por entenderem que Moz é o último de uma geração de grandes homens do rock que pouco se importam para a mídia e para o que vão pensar de suas atitudes ou opiniões.

Tornar-se persona non grata nos dias de hoje é quase sinônimo de elogio para Morrissey. Aos 58 anos e com uma legião fiel que lota todos os seus shows, o ex-vocalista dos Smiths se importa cada ano menos para o que os meios de comunicação ou o senso comum vão pensar ou publicar sobre ele. Aqueles que julgam que o homem enlouqueceu não percebem que, ao fim e ao cabo, ele continua o mesmo jovem rebelde dos anos 80, eternamente malquisto pela mídia e pelo senso comum por abalar as estruturas de uma sociedade cada vez mais hipócrita. Seu mais recente álbum, Low in High School, cospe em todas as instituições tradicionais – as Forças Armadas, a Igreja, a Monarquia, etc. – e sobe o tom ao criticar o autoritarismo. Alt-right? Reacionário? Quem enlouqueceu foram vocês que assim adjetivam o maior britânico vivo e uma das vozes mais ferozes e legítimas do rock n’ roll.

Clique aqui para ler a crítica do mais recente álbum de Morrissey, Low in High School.

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Renato Melmoth

Renato Melmoth é carioca, morador da Tijuca, existencialista e acredita plenamente no amor desde que não esteja envolvido.