Outlander

Já encontrei milhares de livros por aí que falam de milhares de assuntos diferentes. Histórias de fantasia, em que acontecimentos inexplicáveis acontecem viraram tão comuns como os romances e deixamos de perceber sua beleza. Encontrei, em minhas garimpadas pelas livrarias da vida, um livro que, à primeira vista parecia comum e despretensioso, e se mostrou incrivelmente complexo ao longo do caminho.

Outlander, escrito por Diana Gabaldon, é aquele tipo de best-seller barato que tem muita facilidade em encontrar seguidores fiéis. Ficou ainda mais popular depois de ser adaptado para a televisão, em uma série que teve sua primeira temporada em 2014. Apesar de todas as terríveis conjecturas que podemos adotar, o livro é uma miríade de contradições gritantes, boas e ruins, que formam um conjunto estranhíssimo e maravilhoso.

A história se passa inicialmente em 1945, quanto uma ex-enfermeira da Segunda Guerra Mundial vai para a escócia com seu marido para celebrar uma segunda lua de mel. Durante um passeio para buscar flores, Claire entra em um círculo de pedras que a levam para a escócia de 1943. A premissa original, aparentemente estranha, se desenrola de um modo absolutamente complexo. Durante as quase 800 páginas do livro, passamos por 5 cenários diferentes e diversos sub-enredos que se complementam e se conectam naturalmente.

Claire, como personagem principal, é uma figura feminina forte. Apesar de ser privada de todos os confortos que antes conhecia e da possibilidade de voltar para o seu próprio tempo, ela se mostra, durante todo o livro, incrivelmente adaptável às circunstâncias e consegue se infiltrar no modo de vida da época facilmente, criando conexões importantes, ainda que não fosse confiada pelos chefes do castelo para onde foi levada. Jamie, par romântico de Claire durante o livro, é o personagem que define, mesmo inconscientemente, os caminhos que o enredo leva, proporcionando diversos momentos de alívio cômico e até mesmo romântico que são intercalados por cenas de batalha e complicações.

Seria errôneo dizer que Outlander tem uma trama simples, com introdução, complicação, desenvolvimento, clímax e fim. O livro possui uma ordem lógica, porém é permeado de diversas complicações diferentes que são finalizadas por meio de clímax diversos. A única premissa inicial que continua até o fim do livro é o confronto entre os personagens principais e o antagonista, Jack Randall (que por acaso é um antepassado do marido de Claire de 1945, Frank Randall).

Jack Randall (ou Black Jack, como é conhecido) é um exemplo típico de antagonista sadístico e completamente obcecado. Ele representa todas as dificuldades e preconceitos dos séculos passados, tendo que esconder sua homossexualidade por trás de uma máscara de masculinidade e simples ódio. Quando seu amor por Jamie não é correspondido, sua personalidade completamente perturbada pelas circunstâncias é explorada ao máximo, e as complicações da história, desde o início, se dão por sua causa.

Acredito que um dos aspectos que diferem esse livro de qualquer simples fantasia é a habilidade da autora em não se alongar demais na trama. Ela cria um livro gigantesco em que tantas coisas acontecem e você simplesmente não consegue parar de ler. Os personagens passam por tantas coisas, são surpreendidos tantas vezes e mudam tanto que quando todas as 800 páginas terminam, você precisa tentar voltar atrás e se recolocar em todos esses lugares para realmente entender o que estava acontecendo.

Um dos grandes defeitos da trama é o fato de ser absolutamente previsível quanto a algumas decisões de Claire. Além disso, alguns eventos importantes para a história são praticamente deixados de lado. Me parece que não foram explorados em toda a sua potencialidade e diversas vezes eu me pegava pensando para onde tinha ido toda a ação das últimas páginas, e porque ela havia passado tão rapidamente.

Ainda assim, apesar de todos os seus defeitos e momentos estranhos, o livro é um ótimo exemplo de literatura de época, sem ser clichê e super-romântico, com momentos de romance, de dor, alegria e batalha e formando, no fim, uma história incrível. Recomendo para qualquer ávido leitor que goste de grandes tomos, de história, do século XVIII e de enredos épicos com linguagem fácil. Vale a pena ler e se viciar.

*Escrito por Natália Lindner, ex-redatora do Grupo Quinquilharia.

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