O Homem do Castelo Alto

'O Homem do Castelo Alto' foi publicado em 1963 e a obra ainda é extremamente atual

Vou iniciar esse texto com um esclarecimento, essa análise não será sobre a série inspirada no livro lançada pela Amazon Prime, não haverá nem sequer menção da mesma, não porque tenha qualquer sentimento de desprezo à série, mas pelo simples fato de que infelizmente ainda não pude vê-la, então irei realizar uma análise apenas do livro, mas se você acompanha a série e ainda não leu livro, eu te aconselharia a ir em frente com esse artigo e levar tudo isso como uma nova forma de ver as coisas e um convite a ler o livro.

Philip K. Dick é um dos maiores e mais importantes escritores de ficção científica de todos os tempos, ainda que você não tenha lido nada dele e essa seja a primeira vez que vê o seu nome em destaque, deve conhecer alguma obra cinematográfica inspirada em uma de suas obras, do tipo: Blade Runner, Minority Report e O Vingador do Futuro. Das duas obras de Dick que tive contato, há uma grande diferença na construção de suas distopias para as demais, não há uma ampla perspectiva do sistema que esmaga o sujeito, mas sim uma perspectiva do sujeito diante do vazio das más escolhas da humanidade, de seu próprio vazio e incapacidade diante disso em contra-posição ao sistema e ao que restou do mundo. Isto é, tanto em Andróides Sonham Com Ovelhas Eléctricas, quanto em O Homem do Castelo Alto, questões como: o que é a humanidade? O que é a vida? O que torna um ser vivente ou não? A compra da vida sintética e da vida biológica como status social. E o que é a realidade? São pontos focais de Dick, não se limitando apenas a apresentar sistemas e seus males para os indivíduos. A questão existencial está acima de tudo.

Dito tudo isso, vamos voltar para 1945, apague todas as suas lembranças e tudo o que você aprendeu. Imagine que o final da Segunda Guerra Mundial teve outra resolução, o Eixo saí vencedor e o domínio do mundo está dividido entre Japoneses e Nazistas, negros foram escravizados, judeus dizimados em sua maioria e o mapa geográfico mundial tem outros contornos. Basta isso para imaginar o tamanho da proposta de Dick ao leitor, pensar o mundo sobre uma outra perspectiva nos dá um primeiro sentimento quanto ao peso que os fatos históricos tem sobre a nossa realidade e nos exercita a pensar como as coisas se construíram em nossa vida, diante dessas certezas de mundo. E é exatamente esse o grande triunfo do autor: questionar a realidade e ampliar a percepção do leitor para os diversos mundos possíveis.

Eu pensei longamente em iniciar esta parte da análise com uma pequena introdução ao véu de Maya, mas decidi buscar um outro caminho, proporcionada por um sentimento de profunda inquietação após certa revelação do Tao no livro. A confusão me tomou e presumo que a maioria das pessoas sintam um choque profundo ao concluir O Homem do Castelo Alto, só me lembro de ter sentido tal impacto sobre a perspectiva que Dick propõe, quando li e estudei a fundo As Meditações Primeiras de Descartes. A escolha de começar por esse caminho, me parece bastante pertinente se explicada através de uma analogia que é muito utilizada nas apresentações a obra de Descartes. A situação é a seguinte: Um professor entra em uma sala de aula, coloca uma cadeira em frente a turma e propõe um desafio: provem que a cadeira não existe. A maioria dos alunos se esforçam em construir amplas teses sobre a não-existência da cadeira, eis que um aluno leva apenas um minuto para escrever seu argumento e entrega a folha ao professor e saí. Ao ler a resposta o professor se sente amplamente satisfeito. A resposta? “Que cadeira?”

Aí está o brilhantismo quando nos deparamos com a filosofia de Descartes, sua capacidade de questionar todos os pontos, até mesmo sua sanidade, se está desperto e principalmente sua percepção da realidade. O que há de verdade no que é palpável? Seria apenas uma projeção do que tomamos como crença para a vida? E é preciso entender que crença não está remetido a religião, mas a construção do conhecimento que nos impõe certeza sobre uma série coisas. Basta uma nova construção ou negação para que tudo desmorone e novos axiomas sejam produzidos? Seria a vida em todas as suas disposições de construção de conhecimento, apenas um ato de acreditar e aceitar algo e negar o que se opõe a ele? Esses questionamentos são lançados por Dick, até certo ponto do livro de maneira sutil, até que em um baque seco, em uma única pancada ele abala todas as estruturas do leitor. Afinal, qual é a realidade?

O movimento proposto por Dick por não focar nas estruturas, mas sim em personagens históricas como base estrutural e personagens comuns para a condução da realidade, nos coloca na posição de imaginar como seria o mundo se a guerra tivesse outro fim, mas ele faz mais, ele leva essas mesmas personagens comuns a imaginar como seria o mundo se os aliados houvessem vencido a guerra, através da construção da estrutura por personagens históricas e também através de um livro O gafanhoto Torna-se Pesado, e não, ele não vai produzir uma realidade idêntica aos fatos históricos da nossa realidade, ele irá propor uma terceira realidade possível para o desfecho do pós guerra, onde Estados Unidos e Inglaterra tem o domínio do mundo. Imagine o mundo sem a Guerra Fria e todas as proporções geopolíticas que isso produziria, mas não imagine que Dick vai construir um mundo dos sonhos nesse cenário, nada disso, o cenário seria bastante assustador.

Diante da construção de tantos paradoxos, que se constroem lentamente em nossa cabeça, levados pelo Tao para os personagens, a construção do livro nos tensiona por alguns aspectos incômodos. As pessoas continuam vivendo e se adaptando não importa em qual realidade. A imagem que construímos das coisas, ainda que não seja a verdade (se é que é possível pensar em verdade), é muito maior do que qualquer revelação que a faça desmoronar, pois se nos livramos das bases que sustentam nossa vida, como podemos seguir em frente? E é por isso, que mesmo diante da ruína dos alicerces de uma sociedade terrível, ainda assim, é preciso continuar vivendo, buscando uma reconstrução, talvez para seguir em frente. Renunciar a própria crença é um esforço muito maior e mais doloroso do que qualquer distopia. Talvez um dos maiores desconfortos que as distopias produzam, está no fato de que elas abalam a nossa construção de mundo e de relações e tornam possível de maneira crível, tudo o que tememos e rejeitamos.

Dick publicou O Homem do Castelo Alto em 1963 e a obra ainda é extremamente atual, extremamente densa e impactante. É uma leitura capaz de conduzir o leitor de forma a causar um desconforto profundo com o seu desfecho, e isso não é ruim, é exatamente esse o grande brilhantismo de Dick, se colocar também na posição de alvo do que é questionável, como um produtor de sonhos e realidades, incapaz de compreender e lidar com o peso delas e de propor, até certo ponto, ao leitor questionar também sua realidade e as diversas realidades produzidas. Afinal o que compartilhamos? O que estamos vendo e vivendo em comum? Quantos mundos possíveis há? Caso essas questões te façam sentido, vá em frente e busque essa leitura. Se não faz sentido, também se proponha a ler o livro, pois há algo poderoso na condução da obra, capaz de levar o leitor a produzir uma infinidade de questionamentos. E isso é incrível, a experiência que uma obra nos dá ao produzir infinitas questões e não apenas entregar respostas prontas.

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Simony Campello
Estudante de Filosofia, 28 anos, Paulista e curiosa. Fã de cinema de horror e sci-fi. Fanática por música, especialmente uma parte mais sombria e única dos anos 80 e todas as suas vertentes que são muitas. Seguidora de Augusto dos Anjos e Fernando Pessoa, teve sua vida mudada por Memórias do Subsolo e Crime e Castigo de Dostoiévski.