‘Riacho Doce’ e a história da descoberta do petróleo no Brasil

A busca pelo petróleo como plano de fundo para questões pertinentes

Retrato de Jose Lins do Rego, por Portinari (1939).

Muitos já ouviram falar da célebre frase “o petróleo é nosso!” entoada por Getúlio Vargas e por um grupo de brasileiros que acreditavam na competência nacional para a exploração do petróleo descoberto no Brasil no final da década de 1939 na Bahia. Foi a campanha do petróleo é nosso que levou, anos mais tarde, à criação de uma das maiores estatais brasileiras, a Petrobras, numa empreitada de grande sucesso com reconhecimento mundial.

A descoberta do petróleo no Brasil não foi algo totalmente isento das pressões internacionais, como toda e qualquer questão econômica envolvendo nossos recursos naturais, e é por isso que a escolha de um slogan tão nacionalista para um programa que reivindicava a autoridade nacional para a exploração de um dos recursos naturais mais valiosos em todo o mundo veio muito a calhar.

As primeiras perfurações em busca de petróleo no Brasil foram realizadas em Alagoas nas regiões dos povoados litorâneos de Garça Torta e Riacho Doce. Essas perfurações não tiveram o sucesso desejado de imediato e um dos motivos apontados foi a sabotagem motivada por interesses das grandes empresas estadunidenses em impedir o desenvolvimento do Brasil nessa área. Monteiro Lobato, um dos defensores das perfurações sob iniciativa nacional, alertou para esse fato e para uma possível conivência do governo de Getúlio Vargas em um livro intitulado O escândalo do Petróleo.

O petróleo foi de fato encontrado no Brasil, porém no município de Lobatona Na Bahia, em 1939, ano em que José Lins do Rego publica o seu romance intitulado Riacho Doce. Em Alagoas, o petróleo jorraria apenas em 1957. Na época, Alagoas se tornaria o segundo estado a produzir petróleo no Brasil.

É no contexto da problemática por trás da descoberta do petróleo no Brasil que José Lins do Rego escreveu Riacho Doce. O romance se passa na praia alagoana que dá título ao livro. Localizada a apenas 16 km da capital alagoana, Riacho Doce é um belo refúgio à vida agitada e uma interessante e desconhecida alternativa às praias urbanas de Maceió. Num cenário de uma praia longe dos destinos mais badalados, onde a comunidade local é formada por pescadores que vivem do sustento que o mar fornece, é onde encontramos dois dos personagens principais da trama, Carlos e Edna. Carlos é um engenheiro sueco que vêm ao Brasil com Edna, sua esposa, para coordenar as perfurações que visam encontrar petróleo nas terras alagoanas.

O enredo começa com a história da infância de Edna, sueca que mora numa cidade do interior em seu país. Edna tem na figura de sua professora Ester, uma fonte de inspiração que perdurará por longos anos. Um dia, Ester decide ir morar em Buenos Aires e de lá encaminha, alguns anos depois, uma carta para Edna, relatando a sua vida numa cidade muito acolhedora e calorosa. A carta de Ester marca profundamente Edna, cuja ideia de viver em um lugar mais quente e mais acolhedor, fugindo do frio nórdico de seu país, de seus familiares e de seus pensamentos depressivos que parecem atrelados àquele lugar, permanece fixa até o momento em que Carlos a informa de seu desejo de arriscar a vida no Brasil.

Ao chegar no país, mais especificamente em Riacho Doce, Edna de imediato se integra perfeitamente aos moradores locais. A barreira da língua se perde rapidamente e Edna passa a aproveitar cada dia ensolarado à beira-mar a tomar banho de sol e de mar vestindo trajes inadequados para os costumes conservadores locais e a conversar com os pescadores, enquanto o seu marido segue numa luta diária na incessante busca pelo ouro negro. Ao contrário de Edna, Carlos nunca se adaptará aos costumes do pequeno povoado de Maceió.

A integração de Edna com o mar alagoano é um dos pontos mais fortes do livro. Uma mulher vinda de um país frio, que adora o mar e o calor e que aprende desde a sua chegada que se o mar é o grande provedor do sustento local, a água doce dos rios que para lá desaguam é a fonte de grande parte de seus problemas. É de lá que surgem os mosquitos que “botam febre” nos locais. Os moradores de Riacho Doce evitam os rios ao máximo. Há uma maldição ali. Assim como há uma maldição no ouro negro. O petróleo que vem de baixo da terra e se está enterrado lá no fundo da terra, é porque Deus não quer que de lá saia. É o que diz a velha Aninha, autoridade religiosa com imenso respeito e consideração local.

A figura da velha Aninha também desempenha, aliás, papel principal na trama. É nela que José Lins aborda a questão religiosa que não poderia faltar num lugar como Riacho Doce. A velha Aninha tem o poder de invocar Deus a curar enfermos e de amaldiçoar os que se desviarem dos princípios religiosos, os pecadores. Nas mãos da velha Aninha, Edna e seu neto Nô sofrerão as consequências de um amor proibido, com respingos dolorosos em Carlos, um marido bondoso que põe a preocupação com a sua esposa em primeiro lugar, mas que encontra na violência um refúgio a suas frustrações psicológicas. Importante notar a figura de Carlos como um estrangeiro coordenando os trabalhos de perfuração local. O insucesso da empreitada do projeto que visa encontrar o petróleo em Alagoas recairá fortemente sob os ombros desse engenheiro estrangeiro. Afinal de contas, não estariam os estrangeiros sabotando o esforço brasileiro nesse sentido?

Outro ponto crucial desse livro de Zé Lins é a sua carga psicológica. Muitos consideram Dostoiévski como um especialista nesse quesito. Longe de querer fazer comparações, Zé Lins não nos decepciona nesse ponto. São questões psicológicas que o autor aborda na infância de Edna e que a motiva a vir ao Brasil e a tomar certas atitudes que terão sérias consequências. É mais uma vez a questão psicológica que Zé Lins nos traz quando Edna e Nô começam a sofrer as consequências da maldição da velha Aninha. A crença de Nô no poder da sua avó é um elemento proposital para nos fazer pensar se a crença em manifestações e influências religiosas não seria algo corporificado, criado, amplificado ou mesmo catalisado por nossas fraquezas pessoais. A vida privada de Carlos e Edna e as suas reflexões sobre as decisões que ambos tomaram em sua vida também trazem uma forte carga psicológica.

Por fim, como não poderia faltar a um bom representante do modernismo de 1930, Zé Lins não deixa de criticar em Riacho Doce os malefícios que o falso progresso traz consigo através das noticias que os habitantes do povoado começam a espalhar acerca da possibilidade da instalação de uma indústria no local. A população local faz então uma comparação com um distrito da então industrializada Maceió chamado de Fernão Velho:

“Agora a fábrica vinha trazer gente para aquelas bandas. Riacho Doce ficaria como Fernão Velho, o povo escravo dos apitos da fábrica, as meninas trabalhando noite e dia, os donos mandando nas moças como em vacas leiteiras. (os praieiros) Sabiam o que era Fernão Velho, ali na beira da lagoa (Mundaú). Os homens escravos. As mulheres, os meninos, tudo no cabresto do dono.”

A crítica ao falso progresso trazido pelas fábricas também é curiosamente abordada de forma maestral por Jorge Amado em Tieta do Agreste. Este será, por sinal, o tema de um próximo texto aqui em breve. Outro fato curioso que nos faz lembrar Jorge Amado é o tratamento que os tubarões possuem em Riacho Doce. Os pescadores locais não se importavam com a presença deles:

“Nunca por ali sucedera pescador morrer comido de tubarão.”

“Que eles (os tubarões) passassem… também diziam tanta coisa que não era verdade.”

Nesse ponto, Zé Lins parece dialogar com Jorge Amado, para o qual os tubarões têm em geral uma presença amedrontadora. Algo muito parecido ao que fizera mais recentemente Belchior com Caetano e Gil, porém num tom muito mais crítico e direto, quando ele se ocupava em denunciar e lamentar uma ditadura ferrenha, enquanto os seus colegas baianos preferiam letras menos críticas, com mais purpurina e confete.

E assim vemos como Riacho Doce é um livro tão interessante e certamente muito subestimado. Zé Lins encontra na busca pelo petróleo um plano de fundo perfeito para abordar tantas questões importantes de uma forma essencialmente popular. Termino o texto com o começo de uma crônica escrita pelo poeta Carlos Drummond em homenagem ao autor paraibano: “…(Zé Lins) Era um romancista fabuloso; no sentido de que o humilde material nordestino de que ele se servia ganhava contornos de fábula.”

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Lucas Aquino

Nascido em Palmeira dos Índios-AL, guarda no coração as cidades de Maceió, Curitiba e Norwich, além de naturalmente a cidade em que nasceu. Bacharel e licenciado em Química pela Universidade Federal de Alagoas (2012) e Centro Universitário Claretiano (2013). Mestre em Química pela Universidade Federal do Paraná (2014). Atualmente, cursa o doutorado também em Química na mesma instituição, com passagem pela University of East Anglia. Tem interesses diversos que vão muito além da ciência.