Vinte anos de ‘Boas Notícias’, o melhor álbum de Xuxa

Álbum de 1997 representa o auge da cantora

Falar sobre a carreira musical de Xuxa, em pleno ano de 2017, é sinônimo de abrir uma carinhosa porta nostálgica em nossos corações. Esquecida na Record após a decisão da Globo de renegá-la, a eterna Rainha dos Baixinhos produziu dezenas de discos. Alguns especialmente bons, na década de 80 e 90, e outros terríveis, já neste século.

Objeto de diversas controvérsias e protagonista de cenas lamentáveis da programação infantil da televisão brasileira (como esquecer aquele Xou da Xuxa, de 1989, com a apresentação constrangedora de ‘Brincar de Índio’?), é inegável o fato de que Maria da Graça Meneghel se tornou figura singular da cultura brasileira e evoca para si, até hoje, uma aura mágica. Há quem ame, há quem odeie… Talvez ninguém consiga ser indiferente.

Dito isto, acredito ser importante falar do melhor disco produzido pela cantora em tantos anos na estrada. Trata-se de Boas Notícias, álbum de 1997, lançado em uma época onde Xuxa não estava apenas no auge de sua carreira profissional, mas também comemorava diversas realizações de cunho pessoal como tornar-se mãe, por exemplo.

Analiso este long play como um clássico álbum de Xuxa que, nesta fase, começava a mirar também no público adolescente com faixas menos infantis e abordando temáticas mais comuns ao cotidiano juvenil. ‘Boas Notícias’, sob minha perspectiva’, é o melhor álbum da Rainha justamente porque é, dentro das limitações naturais do gênero em que se aventura, um epítome de sua carreira. Esta mescla do que Xuxa fez de melhor resulta em um disco que, apesar de ter faixas com públicos muito bem definidos, possuem uma certa homogeneidade entre elas. Mais do que isso, dialogam melodicamente de forma direta com outros trabalhos lançados pela cantora nos anos anteriores.

Os maiores destaques do álbum, dentre as catorze faixas, são ‘Libera Geral’, ‘Planeta Xuxa’ (faixa de abertura de seu melhor programa na Rede Globo), ‘Boas Notícias’, ‘Amarelinha’, ‘Meu Xamego’, ‘Agora eu Vou Andar (Andar Devagarinho)’, ‘Preste Atenção’, ‘Serenata do Grilo’ e a motivacional ‘Vamos em Frente’. Todas estas canções, plasmadas no álbum em uma ordem curiosa e acertada, são hits instantâneos. Alguns deles lembrados com facilidade até hoje, como ‘Libera Geral’, mas outros infelizmente esquecidos no baú do tempo, como ‘Boas Notícias’ e ‘Vamos em Frente’.

‘Vamos em Frente’ é o exemplo perfeito do novo público que Xuxa tentava atingir (e, ao meu ver, conseguiu de modo arrebatador). Com uma mensagem pra cima, uma espécie de carpe diem à moda de Xuxa, a cantora fala sobre viver em alto astral. ‘Boas Notícias’, single que dá nome ao álbum, segue esta mesma ideia com os seguintes versos dignos de uma utopia:

Violência não existe, nem assalto, nem ladrão
Você pode andar na rua numa boa, tranquilão
Motoristas andam calmos, não avançam os sinais
Não tem engarrafamento e ninguém lhe xinga mais.
Se político promete, ele cumpre, ele faz
Pelo mundo não tem guerra, o planeta está em paz

Ora, é de uma ingenuidade comovente a canção. Quase que a verbalização do que achávamos que o mundo poderia ser quando mais novos. Tudo isto embalado com a voz doce de Xuxa. Também é emocionante perceber as crianças cantando a bela letra da música durante um típico playback do fim dos anos 90… Doce tempo que não retorna (ah, vai, me deixem ser saudosista uma vez na matéria)!

O maior hit de Boas Notícias, contudo, e afirmo sem pestanejar, é ‘Planeta Xuxa’. A canção que embalou os programas de Xuxa nos fins de semana da Rede Globo é símbolo do auge da cantora e de sua melhor fase enquanto cantora e apresentadora infantojuvenil. A loucura da platéia, uma xuxamania, demonstra com exatidão o poder afetivo (e midiático) que a loira exercia sobre os jovens brasileiros.

Enfim, em um álbum repleto de boas canções para seu público à época, Xuxa se reafirmou. Até mesmo as canções que não soam tão grandiosas, como ‘Diet’, são razoavelmente boas. ‘Oração de um Novo Milênio’ e ‘Na Hora Em Que Você Quiser Chegar’, embora possuam letras graciosas, são as faixas mais fracas.

Ah, e não poderia me esquecer de mencionar algo pessoal e sincero. Com suas músicas extremamente bem humoradas como ‘Serenata do Grilo’ e outras tantas com mensagens legais e positivas, Boas Notícias possui o tipo de música que eu colocaria para meus pimpolhos ouvirem durante a primeira infância – isso se eu não tivesse aversão completa à ideia de ter filhos, é claro.

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Yuri Resende
Yuri Resende é carioca da gema e nasceu em junho de 1997, embora muitos afirmem, devido à sua personalidade nostálgica e saudosista, que tenha nascido algumas décadas antes. Estudante de História na Universidade Federal do Rio de Janeiro, é obcecado por Morrissey, Beatles, Star Wars, Milan Kundera e Oscar Wilde.